InícioGeralComportamentoNunca estivemos tão conectados e tão sozinhos

Nunca estivemos tão conectados e tão sozinhos

Publicado em

Publicidade

Solidão e isolamento social atingem diferentes gerações e passaram a ser tratados como questão de saúde pública; jovens estão entre os grupos que mais relatam solidão

Solidão e isolamento social passaram a ocupar espaço crescente no debate sobre saúde e comportamento em uma época marcada por redes sociais, mensagens instantâneas e comunicação permanente. Apesar das inúmeras formas de manter contato, cerca de uma em cada seis pessoas no mundo relata sentir solidão, segundo estimativas reunidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

📲Quer receber notícias direto no celular? Entre no nosso grupo no WhatsApp.

O fenômeno não se restringe a quem vive sozinho. Uma pessoa pode ter poucos contatos e não se sentir solitária, enquanto outra pode estar cercada de familiares, colegas e centenas de conexões digitais e ainda assim experimentar uma profunda sensação de desconexão.

É justamente essa diferença que ajuda a compreender por que a solidão ganhou importância para pesquisadores e autoridades de saúde.

Para a OMS, isolamento social corresponde à situação objetiva de uma pessoa possuir poucas relações ou interações com outras pessoas. A solidão, por outro lado, é subjetiva e surge quando existe uma distância entre os vínculos que alguém possui e aqueles que gostaria ou precisaria ter.

Jovens estão entre os que mais sentem solidão

Embora a imagem da solidão costume estar associada à velhice, os levantamentos mais recentes mostram um cenário mais complexo.

As estimativas da OMS apontam que adolescentes e adultos jovens estão entre os grupos com maior prevalência de solidão. A organização já classificou a falta de conexão social como um problema que atravessa idades, países e condições econômicas.

Em uma manifestação à Assembleia Mundial da Saúde, em 2025, a OMS afirmou que pelo menos um em cada seis adolescentes é afetado por isolamento social ou solidão. A organização também chamou atenção para fatores que podem agravar o problema entre os mais jovens, incluindo uso excessivo de tecnologia e características dos ambientes urbanos.

Isso não significa que redes sociais ou celulares provoquem automaticamente solidão. A relação é mais complexa.

As mesmas ferramentas digitais que podem aproximar pessoas separadas por grandes distâncias também podem substituir parte das interações presenciais ou criar relações que não necessariamente atendem às necessidades emocionais de cada indivíduo.

Estamos conversando menos?

Um sinal dessa transformação aparece também na quantidade de conversas cotidianas.

Pesquisa repercutida recentemente pela imprensa brasileira identificou redução na quantidade média de palavras faladas por dia entre 2005 e 2019. A queda foi mais acentuada entre os jovens, grupo que também passou por uma transformação profunda na forma de comunicação durante esse período.

Mensagens de texto, áudios curtos, vídeos, redes sociais e aplicativos substituíram parte das conversas presenciais e até das chamadas telefônicas.

Isso não significa necessariamente que as pessoas tenham parado de se comunicar. Em muitos casos, a comunicação simplesmente migrou para outras plataformas e formatos.

O que pesquisadores procuram entender é se essa transformação também está alterando a profundidade e a qualidade das relações.

Afinal, estar permanentemente disponível em um aplicativo não significa necessariamente sentir-se emocionalmente conectado.

Solidão também está presente depois dos 60 anos

Na outra ponta da vida, o problema assume características diferentes.

Cerca de 11,8% das pessoas mais velhas relatam solidão, segundo dados divulgados pela OMS, enquanto aproximadamente um em cada quatro idosos enfrenta isolamento social.

Mudanças próprias do envelhecimento podem aumentar essa vulnerabilidade. Aposentadoria, morte de familiares e amigos, redução da mobilidade, mudanças de residência e problemas de saúde podem diminuir progressivamente o círculo de convivência.

Nesse caso, o isolamento pode ocorrer mesmo quando a pessoa não escolheu se afastar.

A dificuldade para se locomover, por exemplo, pode transformar atividades simples, como visitar amigos, participar de encontros ou frequentar espaços públicos, em obstáculos cada vez maiores.

Estudo acompanha solidão crônica entre idosos

Uma pesquisa publicada em setembro de 2026 na revista científica Nature Communications acrescentou novas evidências sobre os efeitos da solidão persistente na velhice.

Os pesquisadores acompanharam dados de 4.090 adultos mais velhos participantes de um estudo longitudinal realizado na Inglaterra e analisaram diferentes padrões de solidão e isolamento ao longo do tempo.

A solidão crônica apareceu associada posteriormente a pior percepção da saúde geral, limitações funcionais, pior bem-estar mental e comportamentos menos saudáveis. Os pesquisadores também encontraram diferenças importantes entre pessoas persistentemente isoladas e aquelas que conseguiram superar o isolamento.

O estudo é particularmente importante porque mostra que solidão e isolamento não são necessariamente situações permanentes.

Entre os participantes que deixaram de estar socialmente isolados, foram observadas associações positivas com bem-estar mental e cognição em comparação com pessoas que permaneceram isoladas.

Solidão e isolamento não são a mesma coisa

A diferença entre os dois conceitos é fundamental.

Alguém pode morar sozinho, trabalhar de casa e manter poucas relações sociais, mas estar satisfeito com essa rotina.

Outra pessoa pode trabalhar em um escritório cheio, encontrar familiares frequentemente e manter centenas de contatos nas redes sociais, mas ainda sentir que não possui relações significativas.

Por isso, pesquisadores passaram a avaliar não apenas quantas relações uma pessoa possui, mas também a qualidade desses vínculos.

A OMS divide a conexão social em três dimensões: a estrutura das relações, o apoio oferecido por elas e a qualidade das interações.

Essa distinção ajuda a explicar por que simplesmente aumentar o número de contatos não resolve necessariamente a solidão.

Quando a falta de vínculos chega à saúde

As consequências podem ir além do desconforto emocional.

A OMS relaciona a falta de conexão social a maior risco de ansiedade, depressão e outros problemas de saúde. Dados apresentados pela organização também apontam associação entre isolamento social e aumento do risco de doenças cardiovasculares e acidente vascular cerebral.

Em 2025, representantes da organização citaram aumento de aproximadamente 29% no risco de doença cardiovascular e 32% no risco de AVC entre pessoas expostas à falta de conexão social. Esses números representam associações observadas em estudos populacionais e não significam que a solidão, isoladamente, seja responsável por todos esses eventos.

Essa ressalva é importante porque saúde física, comportamento e relações sociais podem influenciar uns aos outros.

Uma pessoa com doença crônica, por exemplo, pode sair menos de casa e tornar-se socialmente isolada. Ao mesmo tempo, o próprio isolamento pode contribuir para hábitos menos saudáveis e pior bem-estar.

Um problema diferente em cada geração

Embora jovens e idosos apareçam com frequência nas pesquisas, os caminhos que levam à solidão podem ser muito diferentes.

Entre os mais jovens, transformações na comunicação, mudanças na vida escolar e profissional, mobilidade urbana e relações cada vez mais mediadas por plataformas digitais estão entre os fatores investigados.

Entre idosos, perdas familiares, aposentadoria, limitações físicas e redução das oportunidades de convivência assumem maior importância.

O resultado, porém, pode ser semelhante: uma rede de relacionamentos que deixa de oferecer a conexão necessária para aquela pessoa.

É por isso que a OMS passou a defender que a chamada saúde social receba atenção semelhante à destinada à saúde física e mental. Em 2023, a organização criou uma Comissão sobre Conexão Social e, em 2025, publicou um relatório global reunindo evidências e possíveis estratégias de enfrentamento.

Mais contatos não significam necessariamente mais conexão

A transformação tecnológica criou uma situação inédita.

Nunca foi tão fácil localizar um antigo amigo, conversar com alguém do outro lado do mundo, acompanhar familiares à distância ou entrar em comunidades formadas por pessoas com os mesmos interesses.

Ao mesmo tempo, a quantidade de conexões disponíveis não garante que elas sejam profundas, frequentes ou satisfatórias.

É nesse ponto que está um dos paradoxos do comportamento contemporâneo: podemos passar grande parte do dia conectados e, ainda assim, sentir falta de alguém com quem realmente conversar.

A resposta para a solidão, portanto, dificilmente está apenas em ter mais contatos.

As evidências reunidas até agora sugerem que o desafio é preservar e reconstruir relações capazes de oferecer convivência, apoio, pertencimento e reciprocidade.

Em uma sociedade em que praticamente qualquer pessoa pode ser alcançada em segundos por uma tela, a pergunta começa a deixar de ser quantas pessoas estão conectadas conosco.

A questão passa a ser com quantas delas realmente nos sentimos conectados.

Leia mais:
Novo estudo revela relação entre uso de redes sociais por crianças e desempenho escolar
Vídeos feitos com IA para crianças dominam o YouTube e acendem alerta de especialistas
Redes sociais podem ser tão nocivas aos jovens quanto o cigarro, alertam médicos

Siga nosso perfil no Instagram, Tiktok e curta nossa página no Facebook

spot_img

Últimas Notícias

Próximo presidente poderá indicar até quatro ministros do STF

Uma cadeira já está vaga e Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes atingem...

Saiba o que cada presidenciável propõe para a segurança pública

Maioridade penal, combate às facções, sistema penitenciário e participação das Forças Armadas estão entre...

Diagnósticos de autismo crescem e ciência busca explicar avanço dos casos

Ampliação dos critérios, maior acesso ao diagnóstico, genética e fatores ambientais estão entre as...

Governo Lula anuncia proibição de bets e cassinos online no Brasil

Medida Provisória estabelece prazos para saque de saldos de usuários, interrupção de publicidade e...

Mais como este

Exército realiza simulação de defesa cibernética antes das eleições

Exercício Guardião Cibernético reuniu 1,3 mil participantes e ocorreu também em Manaus em meio...

Brasil e Europa estudam conexão entre Pix e Tips para pagamentos internacionais

Banco Central do Brasil e Banco Central Europeu avaliam integração que poderá tornar transferências...

IA da OpenAI invade site do governo da Austrália durante teste

Agente de inteligência artificial acessou arquivos públicos e não públicos de portal ligado a...