O avanço da inteligência artificial na educação tem provocado uma mudança profunda na forma como alunos realizam atividades escolares. Embora o uso de ferramentas como o ChatGPT seja frequentemente associado à terceirização de trabalhos e ao aumento da desonestidade acadêmica, a discussão também revela problemas que já existiam no modelo tradicional de ensino e que ganharam mais visibilidade com a popularização da tecnologia.
Em vez de apontar a IA como origem da crise, a análise sugere que a tecnologia apenas tornou mais evidente uma estrutura educacional baseada na memorização e na reprodução de conteúdos, modelo criticado há décadas pelo educador Paulo Freire.
Inteligência artificial na educação evidencia um modelo centrado na repetição
O debate parte da constatação de que boa parte das tarefas escolares consiste na reprodução de informações, fórmulas, datas e conceitos previamente apresentados em sala de aula. Nesse cenário, ferramentas de inteligência artificial conseguem executar essas atividades com rapidez e eficiência, o que leva muitos estudantes a recorrerem à tecnologia para concluir trabalhos e exercícios.
A lógica, porém, não seria inédita. Antes da chegada da IA generativa, já eram comuns práticas como copiar textos da internet, utilizar trabalhos produzidos por terceiros ou recorrer à cola durante avaliações. Mesmo alunos que realizavam as atividades por conta própria muitas vezes limitavam seu aprendizado à memorização temporária dos conteúdos, esquecendo-os logo após as provas.
Esse padrão aproxima o ensino do que Paulo Freire definiu como “educação bancária”, conceito desenvolvido na década de 1960 para descrever um sistema em que o professor deposita informações no estudante, que apenas as armazena e posteriormente as reproduz, sem uma relação crítica com o conhecimento.
IA pode abrir caminho para mudanças no ensino
Apesar das preocupações envolvendo o uso da inteligência artificial nas escolas, o texto argumenta que a tecnologia também pode representar uma oportunidade para repensar a finalidade da educação.
A proposta inspirada em Paulo Freire não prevê a rejeição da técnica, mas sua utilização de forma crítica e subordinada aos objetivos do processo educativo.
Em vez de serem combatidas, as ferramentas de IA podem ser problematizadas, apropriadas criticamente e postas a serviço de projetos que exijam investigação, diálogo e produção de significado.
Isso implica substituir atividades centradas exclusivamente na repetição de conteúdos por desafios que estimulem pesquisa, interpretação, formulação de perguntas e construção de argumentos. Da mesma forma, avaliações poderiam acompanhar processos de investigação, criação e reflexão, em vez de apenas medir a capacidade de memorizar informações.
O texto também defende que essa mudança exige uma reorganização curricular capaz de despertar o interesse dos estudantes pelo aprendizado.
A discussão ocorre em um contexto de crescimento acelerado do uso da inteligência artificial entre estudantes. Pesquisas nacionais mostram que a tecnologia já faz parte da rotina escolar de grande parcela dos alunos, enquanto a orientação sobre seu uso ainda permanece limitada nas instituições de ensino.
Ao final, a análise conclui que a inteligência artificial não cria, por si só, os problemas da educação. Em vez disso, amplia a visibilidade de fragilidades históricas do ensino e recoloca em debate uma questão mais ampla: qual deve ser a finalidade social da educação, desde a educação básica até a pós-graduação.
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