Amamentação exclusiva nos primeiros seis meses fornece nutrientes e componentes bioativos importantes para o desenvolvimento e pode ter repercussões na saúde até a vida adulta.
O aleitamento materno pode produzir efeitos que ultrapassam os primeiros meses da infância e repercutir na saúde ao longo da vida. Além de fornecer nutrientes essenciais ao crescimento, o leite materno participa da proteção imunológica e do desenvolvimento da criança. Ainda assim, menos da metade dos bebês com menos de seis meses no mundo recebe amamentação exclusiva.
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O leite materno tem composição adaptada às necessidades de cada fase do crescimento e ajuda a proteger contra diarreias, infecções respiratórias e alergias. A amamentação também está associada à redução do risco de obesidade e de algumas doenças metabólicas, além de contribuir para o desenvolvimento cognitivo e emocional. Para a mãe, estão entre os benefícios a redução dos riscos de hemorragia pós-parto e de câncer de mama e de ovário.
Aleitamento materno é recomendado até dois anos ou mais
A recomendação é que, nos primeiros seis meses, o bebê receba exclusivamente leite materno, sem necessidade de água, chás ou outros alimentos. Depois desse período, alimentos complementares adequados devem ser introduzidos, enquanto a amamentação pode continuar até os dois anos de idade ou mais.
Em 2026, a Semana Mundial do Aleitamento Materno adotou o tema “Amamentação para um começo de vida sustentável: fortaleça o que funciona”. A campanha busca ampliar estratégias que já apresentaram resultados na proteção, promoção e apoio à amamentação.
No Brasil, agosto também é marcado pelo Agosto Dourado, mês dedicado à promoção do aleitamento materno. A mobilização foi instituída pela Lei nº 13.435/2017 e inclui ações de conscientização e incentivo à amamentação.
Primeiros mil dias podem repercutir na vida adulta
Os primeiros mil dias de vida, período que vai da concepção até os dois anos de idade, representam uma fase de intenso desenvolvimento do organismo. Pesquisas realizadas há quase três décadas pelo Laboratório de Fisiologia Endócrina do Instituto de Biologia Roberto Alcantara Gomes, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), investigam doenças crônicas associadas a alterações ocorridas durante a gestação e a lactação.
Os estudos se concentram especialmente em doenças endócrinas, como obesidade e diabetes. Há evidências de que mudanças na alimentação materna ou no ambiente ao qual a mãe está exposta durante essa fase crítica podem repercutir na saúde da criança a longo prazo.
A desnutrição, por exemplo, pode comprometer o desenvolvimento infantil e aumentar o risco de doenças metabólicas na vida adulta. Nesse processo, o leite materno exerce papel importante por fornecer nutrientes e componentes bioativos envolvidos também na proteção imunológica.
Desmame precoce é investigado em estudos experimentais
O desmame precoce, caracterizado pela interrupção do aleitamento materno exclusivo antes do período recomendado, está relacionado a maior risco de morbidade e mortalidade infantil e pode estar associado ao sobrepeso e à obesidade ao longo da vida.
A partir dessas evidências epidemiológicas, pesquisadores da UERJ investigam em animais os mecanismos que podem explicar o maior risco de doenças metabólicas. Nos modelos experimentais estudados pelo grupo, o desmame precoce provoca alterações hormonais e interfere no controle da ingestão de alimentos e do gasto energético, mecanismos relacionados ao desenvolvimento da obesidade.
As pesquisas também avaliam como fatores nutricionais e ambientais durante a lactação podem modificar a composição do leite materno. Entre os fatores investigados estão estresse, desnutrição, uso de drogas e exposição a contaminantes ambientais, como cigarro e bisfenol A.
Segundo trabalhos do grupo, essas alterações podem estar relacionadas a maior risco de obesidade, disfunções metabólicas, doenças cardiovasculares e transtornos neurocomportamentais.
Alimentação e ambiente materno também são importantes
Essas relações são estudadas dentro do conceito de Origens Desenvolvimentistas da Saúde e da Doença, conhecido pela sigla em inglês DOHaD. A área investiga como condições enfrentadas nas primeiras fases da vida podem influenciar a saúde posteriormente.
Parte desse conhecimento foi reunida no livro “Amamentação molda o resto da nossa vida: doenças que surgem com o desenvolvimento”, que aborda a origem de doenças crônicas não transmissíveis e busca fornecer informações que possam contribuir para políticas públicas de prevenção.
A proteção à amamentação, portanto, não depende apenas do incentivo para que a mãe amamente. Apoio familiar e comunitário, orientação de profissionais de saúde, condições adequadas no ambiente de trabalho e acesso a informações confiáveis também fazem parte desse processo.
A própria campanha mundial de 2026 enfatiza a necessidade de fortalecer medidas que já demonstraram resultados. A Organização Mundial da Saúde destaca ainda que ampliar a amamentação representa um investimento com impactos na saúde e também na redução de custos para os sistemas de saúde.
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