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Brasil lidera exportação de cinco commodities agrícolas para a China em meio a alerta climático

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País respondeu por 73% da soja e por mais da metade do milho e da carne bovina importados pelos chineses em 2025. Estudo alerta para os riscos das mudanças climáticas e defende cooperação para fortalecer a produção sustentável.

O Brasil lidera o fornecimento de cinco commodities agrícolas à China, segundo dados de 2025 reunidos em uma nota técnica elaborada pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e pelo Evergreen Environmental Institute (EEI), da China. O país foi responsável por 73% da soja, 59% do milho, 56% da carne bovina, 43% do frango e 42% do algodão importados pelos chineses.

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Intitulado Relações comerciais China-Brasil: rumo a um novo caminho para a cooperação sustentável, o documento analisa como as transformações no comércio bilateral, os riscos climáticos e as políticas de sustentabilidade influenciam a relação entre os dois países na produção e no consumo de alimentos.

O estudo também identifica oportunidades de cooperação em áreas como rastreabilidade, inovação tecnológica, financiamento, cadeias de abastecimento sustentáveis e agricultura de baixo carbono.

Dependência comercial aumenta preocupação com mudanças climáticas

A análise aponta uma crescente interdependência entre Brasil e China. Enquanto o mercado chinês depende das commodities agrícolas brasileiras para garantir parte de seu abastecimento, a continuidade dessas exportações está relacionada às condições ambientais e climáticas das regiões produtoras, especialmente na Amazônia e no Cerrado.

De acordo com o documento, mais da metade das propriedades rurais localizadas na fronteira entre os dois biomas poderá enfrentar um risco crescente de quebra de safra até 2030, considerando as condições climáticas atuais. Até 2060, a proporção poderá chegar a 74%.

O cenário representa um desafio para a segurança alimentar e para a estabilidade das cadeias internacionais de abastecimento, uma vez que alterações no regime de chuvas, temperaturas elevadas e outros eventos climáticos podem comprometer a produtividade agrícola.

A nota técnica defende que a proteção dos ecossistemas e o fortalecimento de práticas produtivas sustentáveis sejam considerados parte da estratégia comercial entre os dois países.

China importou 111,8 milhões de toneladas de soja em 2025

A soja é um dos principais exemplos da dependência comercial chinesa em relação ao Brasil. Em 2025, a China importou um recorde de 111,8 milhões de toneladas do grão, das quais aproximadamente 82 milhões de toneladas tiveram origem brasileira.

Segundo o estudo, essa concentração torna setores chineses, como os de produção de ração animal e pecuária, mais vulneráveis a impactos climáticos e a mudanças nas condições de governança do uso da terra no Brasil.

A dependência também reforça a importância de medidas que garantam a regularidade da produção e a transparência sobre a origem das commodities comercializadas.

Para o diretor executivo do IPAM, André Guimarães, o desafio é fortalecer a relação comercial diante dos efeitos das mudanças climáticas.

“Proteger a Amazônia e o Cerrado e investir em uma agricultura de baixo carbono não significa produzir menos. Significa criar condições para que o Brasil continue produzindo e para que a China tenha segurança no abastecimento”, afirmou.

O dirigente acrescentou que os dois países podem demonstrar que produção de alimentos, desenvolvimento econômico e conservação ambiental são objetivos compatíveis.

Parceria entre Brasil e China pode ampliar agenda de sustentabilidade

Em 2024, Brasil e China completaram 50 anos de relações diplomáticas e elevaram a parceria bilateral ao patamar de uma comunidade de futuro compartilhado por um mundo mais justo e um planeta mais sustentável.

Além de manterem relações comerciais estratégicas, os dois países integram o BRICS e o G20 e ocupam posições de destaque entre as economias do Sul Global.

Conforme a nota técnica, esse cenário abre espaço para ampliar a cooperação para além da comercialização de commodities, incluindo iniciativas relacionadas à segurança alimentar, à adaptação climática, ao desenvolvimento tecnológico e aos investimentos sustentáveis.

Nesse contexto, a sustentabilidade passa a integrar não apenas a agenda ambiental, mas também as discussões sobre competitividade econômica, segurança no abastecimento e gestão de riscos comerciais.

O estudo destaca que critérios de rastreabilidade e desempenho ambiental vêm ganhando importância no comércio agrícola internacional e nas estratégias adotadas para reduzir vulnerabilidades nas cadeias produtivas.

Rastreabilidade pode fortalecer o comércio agrícola

Brasil e China já dispõem de instrumentos que podem contribuir para aumentar a transparência e o controle sobre a produção e a origem dos produtos agrícolas.

No Brasil, entre as ferramentas citadas pelo estudo estão:

  • Cadastro Ambiental Rural (CAR): reúne informações ambientais dos imóveis rurais.
  • Sistema de Identificação e Certificação Bovina e Bubalina (SISBOV): permite identificar e certificar animais e apoiar o acompanhamento da produção pecuária.
  • Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (PRODES): monitora a supressão da vegetação na Amazônia Legal.

Os dois países também iniciaram iniciativas de cooperação tecnológica para desenvolver sistemas de rastreabilidade transfronteiriços, com o objetivo de melhorar o acompanhamento das cadeias de abastecimento.

Segundo a análise, o principal desafio não está necessariamente na ausência de tecnologia, mas na integração das instituições, na criação de incentivos econômicos e no reconhecimento mútuo dos sistemas utilizados.

Entre os obstáculos identificados estão as diferenças nos padrões de monitoramento, os níveis de transparência dos dados, a participação desigual do setor privado e a fragmentação da governança.

A superação dessas barreiras pode facilitar o compartilhamento de informações e fortalecer mecanismos de controle sobre a origem dos produtos comercializados.

Recuperação de pastagens degradadas pode ampliar produção

Outra estratégia apontada pelo documento é aumentar a produção agrícola em áreas que já foram abertas, reduzindo a pressão sobre a vegetação nativa.

O Brasil dispõe de pelo menos 28 milhões de hectares de pastagens degradadas com alto potencial para conversão agrícola, segundo a nota técnica.

O aproveitamento dessas áreas poderia ampliar em aproximadamente 35% a área plantada com grãos no país, em comparação com a safra 2022/2023, sem exigir uma expansão adicional sobre ecossistemas naturais.

O estudo ressalta que a recuperação de terras degradadas e o aumento da produtividade em áreas já utilizadas podem contribuir para atender à demanda por alimentos sem reproduzir um modelo de crescimento baseado na abertura de novas áreas.

A análise também cita a experiência brasileira entre os anos 2000 e a década seguinte, período em que o país dobrou a produção de alimentos enquanto reduziu em 83% o desmatamento na Amazônia.

Para os pesquisadores, os dados demonstram a possibilidade de conciliar o crescimento da produção agropecuária com medidas de conservação ambiental, desde que sejam adotadas políticas adequadas e mecanismos de monitoramento.

Tecnologia e investimentos podem impulsionar agricultura de baixo carbono

A cooperação tecnológica é outro eixo destacado no documento. A China está entre os grandes investidores mundiais em agricultura de precisão e maquinário digital, enquanto o Brasil desenvolveu experiência em monitoramento territorial e observação por satélite.

Um exemplo dessa parceria é o programa China-Brazil Earth Resources Satellite (CBERS), iniciativa espacial sino-brasileira em funcionamento desde 1999.

A experiência acumulada pelos dois países pode contribuir para ampliar o uso de tecnologias aplicadas ao monitoramento ambiental, à produtividade agrícola e à identificação de riscos nas cadeias de abastecimento.

Em 2025, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Banco de Exportação e Importação da China (CEXIM) também criaram um fundo conjunto com meta de alcançar até US$ 1 bilhão.

Os recursos foram direcionados a áreas como transição energética, infraestrutura verde, bioeconomia e agricultura no Brasil.

No setor agrícola, o estudo identifica oportunidades para integrar financiamento e inovação em iniciativas de mecanização e digitalização da agricultura familiar, além do desenvolvimento de sistemas de rastreabilidade.

Essas medidas podem contribuir para modernizar a produção, melhorar a eficiência no uso dos recursos naturais e estimular práticas de menor emissão de carbono.

Cooperação pode fortalecer a segurança alimentar global

A nota técnica conclui que a combinação de rastreabilidade, intensificação sustentável da produção e financiamento para a agricultura de baixo carbono pode reduzir os riscos de desmatamento, aumentar a resiliência diante das mudanças climáticas e proporcionar maior estabilidade às cadeias globais de abastecimento de alimentos.

O documento também defende que Brasil e China desenvolvam mecanismos de sustentabilidade adaptados às realidades dos países produtores e consumidores de alimentos.

Como duas economias de destaque no Sul Global, os países podem ampliar a cooperação em comércio, ciência, tecnologia, financiamento e conservação ambiental.

A proposta é construir uma agenda na qual o desenvolvimento econômico e a produção de alimentos estejam associados à proteção dos recursos naturais e à capacidade de enfrentar os impactos climáticos.

Nesse cenário, a parceria bilateral poderá servir de referência para iniciativas de cooperação Sul-Sul voltadas à segurança alimentar, à sustentabilidade da agricultura e à estabilidade do comércio internacional.

Fonte: Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e Evergreen Environmental Institute (EEI).

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