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Terras raras: entenda por que o Brasil está no centro da disputa global por minerais críticos

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Reservas brasileiras atraem interesse internacional em meio à corrida por minerais críticos usados em tecnologia, energia e defesa

As terras raras colocam o Brasil em posição estratégica na disputa internacional por minerais críticos, matérias-primas essenciais para setores como inteligência artificial, veículos elétricos, geração de energia, eletrônicos e indústria de defesa. Ao mesmo tempo em que países buscam diversificar suas fontes de fornecimento, o Brasil tenta ampliar o processamento desses minerais em território nacional e evitar que sua participação na cadeia global fique restrita à exportação de matérias-primas.

O movimento ganhou força nas últimas semanas. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou R$ 77,5 milhões para um projeto voltado ao processamento de terras raras em Poços de Caldas, em Minas Gerais.

Paralelamente, o Brasil passou a contar com a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, sancionada em 16 de setembro pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A Lei 15.506/2026 prevê mecanismos para estimular pesquisa, extração, beneficiamento e transformação mineral dentro do país, além de incentivos que podem chegar a R$ 7 bilhões.

Terras raras ganham importância na disputa entre EUA e China

Os minerais críticos são empregados em diversas tecnologias consideradas estratégicas. Entre suas aplicações estão componentes eletrônicos, ímãs de alto desempenho, turbinas eólicas, veículos elétricos e sistemas utilizados pela indústria militar.

A concentração da cadeia de processamento na China transformou o acesso a esses recursos em uma preocupação econômica e de segurança para outros países. Os Estados Unidos, em particular, vêm ampliando investimentos e acordos para diversificar fornecedores e reduzir sua dependência de cadeias ligadas ao mercado chinês.

A disputa ganhou dimensão ainda maior diante do avanço de tecnologias como inteligência artificial e sistemas militares sofisticados, que dependem de minerais com características específicas.

O Brasil aparece nesse cenário por possuir reservas expressivas de terras raras e de outros minerais considerados estratégicos. Dados e levantamentos do Serviço Geológico dos Estados Unidos mostram a relevância mineral brasileira em diversas cadeias, incluindo terras raras, nióbio, lítio, grafite e outros recursos associados às novas tecnologias.

A Estratégia Nacional de Defesa dos Estados Unidos de 2026 também estabelece como prioridade ampliar a presença e preservar o acesso americano a áreas consideradas estratégicas no Hemisfério Ocidental. O documento denomina essa orientação de “Corolário Trump da Doutrina Monroe”.

Interesse estrangeiro cresce sobre reservas brasileiras

O aumento da importância dos minerais críticos tem sido acompanhado por maior procura por projetos de mineração no Brasil, inclusive por empresas estrangeiras.

Um dos casos de maior repercussão envolve a Serra Verde, responsável pelo projeto Pela Ema, em Minaçu, Goiás. A operação produz concentrados com elementos como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, utilizados principalmente na fabricação de ímãs de alto desempenho.

Antes das mudanças recentes em sua estrutura empresarial, a Serra Verde manteve parceria comercial com a chinesa Shenghe Resources. Segundo o material que deu origem à reportagem, em determinado período cerca de 85% da produção chegou a ser destinada à cadeia chinesa. O contrato, inicialmente previsto para dez anos, foi encerrado em 2025.

Posteriormente, a operação passou a integrar uma estratégia de aproximação com empresas e órgãos americanos. Em agosto de 2026, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos anunciou um investimento de US$ 750 milhões relacionado ao fornecimento de carbonatos mistos de terras raras produzidos pelo projeto Pela Ema.

O aporte faz parte de uma estrutura financeira total de US$ 1,55 bilhão, que inclui ainda um compromisso de compra de US$ 300 milhões pela Defense Logistics Agency e outros US$ 500 milhões provenientes de uma instituição financeira.

O acordo evidencia a importância dos minerais brasileiros para a estratégia americana de abastecimento. Segundo o próprio governo dos Estados Unidos, esses elementos são considerados fundamentais tanto para a segurança econômica quanto para a indústria de defesa.

Relação comercial entre Brasil e EUA entra no debate

O interesse sobre minerais críticos também passou a fazer parte de um cenário mais amplo de negociações econômicas entre Brasil e Estados Unidos. As relações comerciais entre os dois países foram afetadas em 2026 por novas tarifas aplicadas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Em 31 de agosto, representantes dos dois governos retomaram oficialmente o diálogo para discutir as medidas e buscar avanços nas negociações comerciais.

Nesse contexto, o acesso a minerais estratégicos brasileiros ganhou importância adicional diante da tentativa americana de diversificar suas fontes de abastecimento. Ao mesmo tempo, setores do governo brasileiro passaram a discutir mecanismos capazes de evitar que o país se limite à extração e exportação de recursos minerais sem participação nas etapas de maior valor agregado da cadeia produtiva.

Brasil tenta avançar no processamento de terras raras

A industrialização é considerada uma das principais questões envolvendo o futuro dos minerais críticos no Brasil. Embora a exploração das reservas possa ampliar investimentos, exportações e geração de empregos, os maiores ganhos econômicos normalmente estão associados às etapas posteriores da cadeia, como separação, refino, processamento e fabricação de componentes tecnológicos.

Se os minerais forem exportados predominantemente em estado bruto ou com baixo nível de processamento, parte significativa do valor econômico da cadeia continuará sendo gerada no exterior. A Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos busca enfrentar essa questão. A legislação prevê instrumentos voltados ao beneficiamento e à transformação dentro do território brasileiro.

Entre eles está o Fundo Garantidor da Atividade Mineral, que pode receber até R$ 2 bilhões da União. A política também prevê créditos fiscais que poderão alcançar R$ 1 bilhão por ano entre 2030 e 2034 para projetos de beneficiamento, transformação mineral e mineração urbana.

O objetivo declarado pelo governo é ampliar a agregação de valor no Brasil e utilizar os recursos minerais para estimular industrialização, inovação tecnológica e segurança energética.

Centro de terras raras recebe R$ 77,5 milhões

O financiamento de R$ 77,5 milhões destinado ao projeto de terras raras em Poços de Caldas é um exemplo dessa estratégia de processamento nacional. O projeto da Viridis prevê a implantação de uma unidade-piloto para produzir carbonato misto de terras raras e testar técnicas de processamento que poderão posteriormente ser empregadas em uma planta industrial de maior escala.

A iniciativa busca desenvolver no Brasil etapas da cadeia que tradicionalmente estão concentradas em outros países, aumentando a possibilidade de agregação de valor antes da exportação.

Exploração também gera preocupação ambiental

Além das oportunidades econômicas, o avanço da mineração de minerais críticos traz desafios ambientais. Parte das reservas brasileiras está localizada no Centro-Oeste e no Norte, regiões que incluem áreas próximas à Floresta Amazônica, ao Cerrado e a territórios indígenas.

A extração e principalmente o processamento de determinados minerais podem gerar resíduos tóxicos e, em alguns casos, materiais radioativos. Também existem riscos relacionados à contaminação de recursos hídricos, alteração do solo e avanço do desmatamento caso os projetos não sejam submetidos a controles ambientais adequados.

A expansão da atividade já provoca divergências entre diferentes setores. Enquanto empresas defendem os investimentos e os incentivos para acelerar a produção, municípios mineradores reivindicam maior participação nos benefícios econômicos gerados pelos projetos.

Organizações indígenas, por sua vez, têm chamado atenção para possíveis impactos sobre territórios tradicionais e defendem a realização de consulta prévia às comunidades potencialmente afetadas.

Decisões podem definir posição do Brasil na nova corrida mineral

A combinação de grandes reservas, crescente demanda internacional e disputa entre potências coloca os minerais críticos entre os temas estratégicos para o futuro econômico e industrial brasileiro. O desafio do país será conciliar a atração de investimentos com o desenvolvimento de uma cadeia produtiva nacional capaz de transformar os recursos extraídos em produtos de maior valor agregado.

Ao mesmo tempo, expansão econômica, proteção ambiental e participação das comunidades afetadas deverão permanecer no centro das discussões.

As decisões tomadas agora sobre exploração, processamento e comercialização das terras raras poderão influenciar por décadas a posição brasileira nas cadeias globais de tecnologia, energia e defesa.

Leia mais:
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