Estudo realizado em países de língua portuguesa e espanhola mostra que conteúdos falsos afetam atendimentos, dificultam campanhas de vacinação e enfraquecem a confiança nas autoridades sanitárias.
A desinformação em saúde tem provocado impactos que vão além das redes sociais e dos aplicativos de mensagens. Informações falsas podem atrasar diagnósticos, estimular o abandono de tratamentos, gerar conflitos familiares e tornar mais complexas as decisões tomadas por profissionais durante o atendimento à população.
O problema ganha força principalmente na Atenção Primária à Saúde, considerada a porta de entrada dos sistemas públicos. Conteúdos que circulam em grupos de WhatsApp e nas mídias sociais chegam rapidamente às unidades, às visitas domiciliares e às salas de vacinação, muitas vezes apresentados como orientações confiáveis.
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Agentes Comunitários de Saúde, enfermeiros e médicos de família estão entre os profissionais mais afetados. Além de lidar com sintomas, exames e tratamentos, essas equipes precisam esclarecer dúvidas, corrigir informações incorretas e reconstruir a confiança de pacientes influenciados por mensagens enganosas.
A situação foi analisada pelo projeto Estudos Comparados sobre a Desinformação em Saúde, coordenado pelo Laboratório de Educação, Informação e Comunicação em Saúde da Universidade de Brasília (ECoS/UnB).
A pesquisa reúne informações de Angola, Argentina, Brasil, Cabo Verde, Chile, Colômbia, Espanha, Guiné-Bissau, México, Moçambique, Peru, Portugal e São Tomé e Príncipe. No Brasil, também participam instituições como as universidades do Estado do Rio de Janeiro e as federais de Goiás, Paraíba e do Vale do São Francisco.
Desinformação em saúde chega às unidades de atendimento
Diferentemente dos grandes hospitais, onde a circulação de informações costuma seguir protocolos e estruturas formais, a Atenção Primária está diretamente ligada à rotina das comunidades. Nesse ambiente, a orientação sobre saúde ocorre de maneira mais próxima, personalizada e relacionada às condições locais.
O estudo, porém, identificou fragilidades nesse processo. Profissionais relatam que precisam corrigir diariamente mensagens falsas recebidas por pacientes por meio de aplicativos e redes sociais. Em muitos casos, o conteúdo foi encaminhado por parentes, vizinhos ou lideranças comunitárias, pessoas que já possuem a confiança de quem recebe a mensagem.
Quando essas publicações despertam medo, indignação ou insegurança, apresentar apenas uma correção baseada em fatos pode não ser suficiente. O profissional também precisa ouvir, dialogar e compreender as razões da desconfiança, tarefas que exigem tempo em serviços frequentemente sobrecarregados.
A pesquisa ainda aponta dificuldades relacionadas ao letramento informacional e digital. Embora muitos trabalhadores da saúde utilizem a internet para atualização profissional, parte deles relata insegurança na avaliação da confiabilidade de páginas, publicações e outras fontes disponíveis na web.
A identificação de uma informação enganosa depende não somente do conteúdo apresentado, mas também de quem publicou, da maneira como a mensagem circula e dos elementos utilizados para simular credibilidade.
Vacinação concentra grande parte das informações falsas
As vacinas aparecem como um dos principais alvos da desinformação nos países analisados. Mensagens que questionam a segurança, a eficácia ou os interesses envolvidos na produção de imunizantes podem ampliar a hesitação vacinal e levar famílias a adiar a aplicação das doses.
Esse tipo de conteúdo costuma explorar fatores sensíveis, como a vacinação de crianças, a confiança em instituições científicas e governamentais e a visibilidade das campanhas de imunização.
As mensagens falsas não precisam apresentar comprovação rigorosa para causar impacto. Muitas vezes, a simples introdução de uma dúvida já é suficiente para atrasar uma decisão. Quando esse comportamento ocorre em larga escala, a cobertura vacinal pode cair e doenças anteriormente controladas voltam a encontrar espaço para circulação.
O efeito atinge diretamente a segurança dos pacientes e aumenta as dificuldades enfrentadas pelo sistema de saúde para prevenir surtos e proteger grupos mais vulneráveis.
Brasil apresenta risco médio e baixa literacia em saúde
A pesquisa também desenvolveu um indicador de Risco de Desinformação, calculado a partir do cruzamento entre a circulação de notícias e os níveis de literacia em saúde. A análise considera que o potencial de dano não depende apenas do volume de conteúdos falsos, mas da capacidade da população e das instituições de reconhecer, filtrar e responder a essas mensagens.
A Argentina apresentou risco de 0,92, classificado como alto, associado a fatores como polarização e desconfiança institucional. A Colômbia também ficou na faixa de alto risco, com índice de 0,74 e necessidade de ações direcionadas principalmente às populações vulneráveis.
Portugal registrou risco médio, com índice de 0,54. Apesar dos níveis moderados de literacia, a pesquisa identificou carência de competências digitais específicas para temas relacionados à saúde.
O Brasil aparece com risco médio de 0,52, mas os baixos níveis de literacia entre a população representam um ponto de atenção. Esse contexto tende a transferir aos agentes de saúde a responsabilidade permanente de traduzir informações científicas e esclarecer conteúdos recebidos pelos usuários.
Os resultados não devem ser interpretados apenas como uma classificação entre países. O indicador mostra que a vulnerabilidade à desinformação envolve fatores políticos, educacionais, tecnológicos e sociais, além da confiança nas instituições e da qualidade da comunicação pública.
Sites oficiais nem sempre oferecem respostas acessíveis
Outro aspecto identificado pela pesquisa está relacionado à experiência dos usuários nos sites oficiais dos ministérios da Saúde. Em diferentes países, problemas de navegação, atualização irregular e falta de clareza dificultam o acesso rápido a informações confiáveis.
Quando a resposta oficial é difícil de localizar ou compreender, o usuário tende a retornar às redes sociais e aos aplicativos de mensagens, ambientes nos quais conteúdos enganosos circulam com maior velocidade.
O estudo indica que o enfrentamento à desinformação não pode ficar restrito à publicação de notas técnicas ou desmentidos. As orientações oficiais precisam ser apresentadas em linguagem clara, com respostas diretas, materiais fáceis de compartilhar e formatos compatíveis com a rotina da população.
Profissionais adotam diferentes formas de reação
No Brasil, 51,2% dos profissionais ouvidos afirmaram que verificam se o site responsável por uma notícia é confiável antes de tomar alguma decisão. O resultado indica preocupação com a validação das informações, mas também revela a necessidade de ferramentas mais rápidas, objetivas e padronizadas para checagem.
Mais de 30% disseram apagar conteúdos falsos e alertar a pessoa que realizou o compartilhamento, com o objetivo de interromper novos encaminhamentos. Outros 9,9% adotam uma postura passiva e apenas ignoram a mensagem, sem apagar ou repassar.
As diferentes reações estão relacionadas às condições de trabalho, ao tempo disponível, à formação para análise crítica das fontes e à existência de orientações institucionais. Sem protocolos claros, o enfrentamento da desinformação acaba dependendo da experiência e da iniciativa de cada profissional.
A pesquisa conclui que a correção factual, isoladamente, não é suficiente. O combate aos conteúdos falsos também exige confiança, comunicação ágil, formação profissional e canais oficiais capazes de oferecer informações acessíveis à população.
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