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O impacto do uso excessivo de redes sociais no desenvolvimento do cérebro humano

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A neurocientista Suzana Herculano-Houzel, uma das maiores autoridades mundiais no estudo do sistema nervoso, trouxe alertas importantes sobre como o comportamento digital contemporâneo afeta a cognição. Em destaque na programação do São Paulo Innovation Week, a pesquisadora reforça que o uso excessivo de redes sociais não causa danos físicos imediatos às células cerebrais, mas representa uma perda irreparável de tempo que poderia ser dedicado ao fortalecimento das habilidades cognitivas e da criatividade. Para a especialista, a tendência atual de terceirizar tarefas para a inteligência artificial (IA) e o consumo passivo de telas podem limitar o potencial inovador do indivíduo.

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A biologia da inovação e o papel dos neurônios

O cérebro humano possui cerca de 86 bilhões de neurônios, uma descoberta da própria Suzana que corrigiu a antiga crença de que seriam 100 bilhões. Segundo a neurocientista, a grande quantidade de neurônios corticais é o que nos confere flexibilidade e capacidade de inovar. No entanto, ela ressalta que a biologia sozinha não é suficiente. A inovação depende de tempo, acesso à educação e, principalmente, da oportunidade de treinar o cérebro por meio de experiências ativas.

A criatividade, nesse contexto, é definida como a habilidade de formar novas combinações de informações para resolver problemas inéditos. Para que essa competência se manifeste, o cérebro precisa de um banco de dados próprio, construído ao longo da vida. Quando o tempo é consumido de forma passiva, esse acervo de experiências deixa de ser alimentado adequadamente.

Os riscos do uso excessivo de redes sociais para a cognição

Embora exista o mito de que as telas possam fritar os neurônios, a neurocientista esclarece que o funcionamento biológico permanece ativo durante a navegação digital. O problema real reside no tipo de atividade. Ao rolar o feed de maneira interminável, o usuário se torna um consumidor passivo de dados que não exigem engajamento ou esforço mental.

Suzana argumenta que esse hábito configura uma oportunidade perdida. O desenvolvimento do cérebro é comparado ao de um músculo, que se torna mais forte e rápido conforme o uso. Ao optar pelo entretenimento passivo, o indivíduo deixa de fortalecer suas conexões neurais. O tempo dedicado a plataformas digitais, muitas vezes guiado por algoritmos de empresas que lucram com a atenção do usuário, é descrito pela pesquisadora como um desperdício de potencial de desenvolvimento pessoal que não pode ser recuperado.

Inteligência Artificial e a terceirização do pensamento

Um dos pontos centrais do alerta de Herculano-Houzel é a relação entre humanos e a IA. Ela explica que grandes modelos de linguagem, como o ChatGPT, operam de forma semelhante ao cérebro no que diz respeito ao processamento de dados e padrões de linguagem. Contudo, há uma diferença fundamental: o cérebro humano se importa com o que faz, possui valores e busca reações emocionais, enquanto a máquina é indiferente ao resultado ou ao impacto de suas ações.

A especialista defende que a terceirização de tarefas para a IA deve ser criteriosa. Delegar processos simples ou técnicos que o usuário já domina pode ser eficiente. O perigo surge quando se transfere à tecnologia a capacidade de decidir e pensar sobre temas que exigem valores humanos. Ao abrir mão do esforço intelectual, o ser humano perde a chance de transformar sua capacidade biológica em habilidade real.

Controle executivo e o ambiente urbano

A neurociência também aponta como o ambiente ao nosso redor influencia a saúde mental. Suzana explica que o cérebro adulto gerencia uma quantidade limitada de energia em um constante cabo de guerra por atenção. Em cidades excessivamente estimulantes, com excesso de sinais visuais e sonoros, o controle executivo (a nossa polícia interna) é exigido ao máximo, gerando estresse e ansiedade.

Para mitigar esse cansaço mental, a pesquisadora sugere a integração de elementos naturais no urbanismo. Ambientes com vegetação, riachos e formas menos rígidas reduzem a necessidade de monitoramento constante, permitindo que o cérebro descanse e recupere sua capacidade de foco.

O futuro da criatividade na infância e no Brasil

Ao projetar o futuro, Suzana Herculano-Houzel destaca que a palavra chave para o desenvolvimento humano é oportunidade. Para crianças, isso significa o acesso a experiências variadas e o incentivo para que busquem suas próprias soluções em vez de receberem tudo pronto de sistemas automatizados.

No cenário brasileiro, a neurocientista aponta que a inovação depende diretamente de investimento financeiro. Ela enfatiza que não existe pensamento inovador sem a infraestrutura necessária para experimentar e errar. O convite final da pesquisadora é para que os indivíduos retomem as rédeas de suas vidas, escolhendo deliberadamente onde investir seu tempo e esforço mental, em vez de se tornarem apenas espectadores de uma era digital automatizada.

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