Relatório da Global Initiative indica avanço do Comando Vermelho em corredores estratégicos da cocaína, com Manaus entre os principais polos logísticos da região
O Comando Vermelho na Amazônia ampliou sua presença em rotas estratégicas do tráfico internacional de cocaína e passou a ocupar uma posição de maior influência que o Primeiro Comando da Capital (PCC) em partes da região, segundo estudo da Global Initiative Against Transnational Organized Crime.
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A análise, conduzida pelo pesquisador Gabriel Funari, aponta mudanças na dinâmica do crime organizado na Amazônia brasileira, com o fortalecimento de redes locais ligadas ao CV e alterações nas rotas usadas para transportar cocaína em direção a outras regiões do Brasil e ao mercado internacional.
Manaus aparece como um dos principais polos logísticos dessa estrutura, enquanto Belém e cidades do Amapá também ganharam importância como pontos de circulação e saída de drogas. Pesquisas recentes da organização indicam ainda que o Amapá vem assumindo papel crescente nos carregamentos destinados à Europa.
Disputa entre facções mudou cenário na Amazônia
A expansão do Comando Vermelho está relacionada a anos de disputas entre organizações criminosas pelo controle de territórios e rotas na Região Norte.
Segundo o estudo, grupos criminosos locais inicialmente se organizaram para conter o avanço de organizações de outras partes do país. Com o enfraquecimento e a fragmentação de algumas dessas estruturas, integrantes e lideranças passaram a estabelecer novas alianças.
No Amazonas, a desarticulação da Família do Norte (FDN), que teve forte presença no estado, contribuiu para uma reorganização desse cenário.
Parte das redes criminosas locais acabou se aproximando do Comando Vermelho, fortalecendo a presença da facção em pontos estratégicos para o transporte e distribuição de drogas.
Estrutura descentralizada favoreceu alianças locais
Uma das diferenças apontadas pelo levantamento está na maneira como CV e PCC estruturam suas operações.
O estudo descreve o Comando Vermelho como uma organização que concede maior autonomia a grupos e integrantes associados nos territórios onde atua. Esse modelo teria facilitado acordos com organizações locais e permitido uma adaptação mais rápida às características de diferentes regiões amazônicas.
O PCC, por outro lado, é descrito como uma organização com mecanismos internos mais estruturados e centralizados.
A maior autonomia existente nas redes ligadas ao CV, entretanto, também pode representar uma fragilidade. Especialistas ouvidos pelos pesquisadores apontam que organizações descentralizadas podem enfrentar maior dificuldade para controlar disputas internas e impedir o surgimento de novos concorrentes.
Cocaína e garimpo ilegal passam a compartilhar estruturas
O avanço das organizações criminosas na Amazônia não está restrito ao tráfico de drogas.
Estudos da Global Initiative apontam uma crescente conexão entre o comércio de cocaína e outros mercados ilegais, especialmente a mineração clandestina de ouro.
Recursos obtidos com o tráfico podem ser direcionados para operações de garimpo ilegal, enquanto pistas clandestinas, embarcações, redes logísticas e estruturas utilizadas na mineração também podem servir à movimentação de drogas e outros produtos ilícitos.
A organização identificou conexões semelhantes em diferentes partes da Bacia Amazônica, onde tráfico de drogas, mineração ilegal, contrabando de armas e outras atividades criminosas passaram a compartilhar infraestrutura e redes financeiras.
Fronteira com Peru e Colômbia ganha importância
A localização da Amazônia brasileira é considerada estratégica para o tráfico internacional por sua proximidade com Colômbia, Peru e Bolívia, países diretamente ligados às áreas produtoras de coca e cocaína.
A extensa rede de rios e a dificuldade de fiscalização permanente em determinadas regiões também favorecem a criação de rotas alternativas.
Na área da tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, cidades como Tabatinga e Leticia se consolidaram como pontos relevantes para redes criminosas transnacionais.
Pesquisas da Global Initiative identificaram ainda a presença de organizações brasileiras em áreas produtoras de coca no Peru e em outras atividades ilegais realizadas além das fronteiras brasileiras.
Amapá ganha espaço nas rotas para a Europa
Uma das mudanças recentes identificadas pelos pesquisadores está no crescimento das rotas que atravessam o Amapá.
Macapá e Santana são apontadas como pontos cada vez mais relevantes para a movimentação de carregamentos destinados ao mercado europeu.
Belém continua tendo papel importante, mas organizações criminosas passaram a diversificar caminhos e métodos de transporte para reduzir riscos e encontrar novas possibilidades de escoamento.
Entre os meios utilizados estão embarcações pesqueiras, lanchas rápidas, contêineres e pequenas aeronaves.
Expansão pressiona comunidades tradicionais
O fortalecimento das economias ilegais também produz consequências para comunidades indígenas, ribeirinhas e outras populações tradicionais.
Em regiões onde a presença permanente do Estado é limitada, organizações criminosas podem exercer influência sobre atividades econômicas e sobre a circulação de pessoas e mercadorias.
O avanço do tráfico e do garimpo ilegal também aumenta a pressão sobre territórios ambientalmente sensíveis e comunidades localizadas próximas a rios, áreas de mineração e zonas de fronteira.
Combate ao crime enfrenta dimensão territorial da Amazônia
Operações policiais realizadas nos estados amazônicos têm resultado em apreensões de drogas, bloqueio de recursos financeiros e desarticulação de estruturas logísticas.
No Amazonas, uma operação realizada em agosto de 2026 contra um grupo apontado pelas autoridades como ligado ao Comando Vermelho identificou o uso de aeronaves e pistas clandestinas no transporte de drogas. Segundo a investigação, a organização teria movimentado mais de R$ 35 milhões.
Apesar das ações de repressão, pesquisadores destacam que a dimensão territorial da Amazônia, a extensa malha fluvial e a integração entre diferentes mercados ilegais dificultam a fiscalização permanente.
O cenário descrito pela Global Initiative indica que o controle das rotas amazônicas passou a ocupar posição central na disputa entre organizações criminosas brasileiras, especialmente por permitir acesso às áreas produtoras de cocaína e aos caminhos de exportação para outros continentes.
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