InícioAmazôniaPinturas rupestres inéditas são identificadas no Alto Rio Negro

Pinturas rupestres inéditas são identificadas no Alto Rio Negro

Publicado em

Publicidade

Uma pesquisa intercultural de caráter multidisciplinar resultou na identificação das primeiras pinturas rupestres documentadas pela arqueologia ocidental no extremo noroeste do Amazonas, na região conhecida como “Cabeça do cachorro”. O achado, localizado na Terra Indígena Alto Rio Negro (Tiarn), no município de São Gabriel da Cachoeira, representa um marco para a compreensão da ancestralidade e das dinâmicas de ocupação humana na bacia amazônica. O estudo é coordenado pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), instituição vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

📲Quer receber notícias direto no celular? Entre no nosso grupo no WhatsApp.

Batizado de “Vozes da Amazônia Indígena: processos históricos da sociobiodiversidade frente aos desafios do antropoceno”, o projeto concluiu seu primeiro ano de atividades com a colaboração de aproximadamente 100 profissionais, entre cientistas e integrantes de comunidades tradicionais, representando mais de 20 instituições de pesquisa. Os vestígios pictóricos foram localizados em áreas sagradas para os povos Baniwa e Koripako, que habitam as margens do rio Içana, um dos afluentes do rio Negro.

Metodologia intercultural e proteção do patrimônio arqueológico

Diferente de abordagens científicas tradicionais, o projeto adota uma perspectiva interepistêmica, em que os pesquisadores indígenas atuam diretamente na condução e na governança dos trabalhos de campo. Devido ao valor cultural, espiritual e científico dos locais visitados, as comunidades locais decidiram restringir o acesso aos abrigos rochosos onde os grafismos estão preservados, permitindo a entrada apenas dos membros autorizados da equipe de pesquisa.

O professor e pesquisador de origem Baniwa, Sidney Garcia, graduado em Licenciatura Intercultural Indígena pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), destacou a complexidade logística para acessar os sítios, situados em áreas densas e isoladas da floresta. Segundo o especialista, mesmo para os habitantes contemporâneos do território, o contato presencial com as pinturas constitui um fato novo, embora a existência desses locais integre a memória oral e a geografia sagrada transmitida pelos antepassados.

A mediação e a liderança dos pesquisadores locais são consideradas fundamentais para garantir o respeito aos protocolos tradicionais. Outro integrante do projeto, o linguista Artur Garcia Gonçalves, conhecido como Artur Walipere, doutor pela Universidade de Brasília (UnB), ressalta que o estabelecimento desse diálogo simétrico dita quais saberes podem ser compartilhados publicamente e quais devem permanecer sob a salvaguarda de detentores de linhagens rituais e pajés.

Análise técnica e estilo novo de arte rupestre na Amazônia

Os arqueólogos responsáveis pela análise preliminar enfatizam que a identificação não deve ser tratada sob uma ótica colonialista de “descoberta”, uma vez que o espaço geográfico é amplamente reconhecido pela tradição oral nativa. Cientificamente, contudo, o registro é inédito para a porção brasileira do noroeste da bacia amazônica, onde o padrão mais frequente é a presença de gravuras rupestres (petróglifos) gravadas em rochas baixas nas margens dos rios, visíveis predominantemente nos períodos de seca.

O arqueólogo Raoni Maranhão Valle, professor da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), explicou que as pinturas foram encontradas em dois setores distintos ao longo do rio Içana, protegidas no interior de abrigos sob rocha em uma formação serrana elevada. No setor 1, os grafismos apresentam pigmentação vermelha e amarela, cuja base mineral provém de óxidos de ferro, como a hematita (ocre).

Até o momento, as análises não identificaram figuras antropomórficas ou zoomórficas evidentes. Os pesquisadores classificam o conjunto como grafismos abstrato-geométricos e potencialmente biomórficos. Uma característica singular observada foi a aplicação do pigmento acompanhando de forma deliberada os contornos e as saliências naturais da rocha, o que aponta para a catalogação de um estilo novo de arte rupestre na Amazônia, indicando que o suporte geológico possuía uma carga simbólica ativa para os autores das pinturas.

Hipóteses cronológicas e o uso de tecnologia Lidar

Embora a datação absoluta dos pigmentos ainda dependa de análises laboratoriais complexas, a equipe trabalha com a hipótese inicial de que as intervenções humanas tenham ocorrido durante o Holoceno Médio, em um período estimado entre 8.000 e 4.000 anos antes do presente (AP). Essa estimativa baseia-se na observação de processos biogeoquímicos posteriores, como o crescimento de colônias de líquenes diretamente sobre as camadas de tinta.

A proliferação desses microrganismos ocorre sob condições ambientais específicas. A literatura paleoambiental aponta que o Holoceno Médio foi caracterizado por fases de menor umidade na bacia amazônica, sugerindo que as pinturas foram executadas em uma época em que o clima local diferia do padrão atual. Um dos próximos passos da investigação consistirá na tentativa de datar os líquenes para determinar a idade mínima do material subjacente.

O projeto estende-se por três territórios federais e abrange também a Terra Indígena Kaiapó, no Pará, e a Terra Indígena do Xingu, no Mato Grosso. O escopo das expedições envolve o cruzamento de dados de inventários biológicos, descrição de novas espécies, mapeamento linguístico e o uso de tecnologia laser Lidar (Light Detection and Ranging), capaz de realizar levantamentos topográficos de alta resolução através da cobertura florestal. O material coletado em campo, que inclui modelos tridimensionais, fotografias e decalques digitais, está em fase de pós-processamento no Laboratório de Antropologia Visual e Arqueologia da Imagem (Lavai/Ufopa). Os resultados detalhados serão assinados conjuntamente e publicados em formato científico interepistêmica pelas lideranças Baniwa e pesquisadores associados.

Leia mais:
Incra inicia vistorias para criar o primeiro assentamento pesqueiro do Amazonas
Reino Unido se torna o segundo maior doador do Fundo Amazônia

Amazonas decreta emergência climática preventiva para conter impactos do El Niño

Siga nosso perfil no InstagramTiktok e curta nossa página no Facebook

Últimas Notícias

Dia dos Namorados impulsiona comércio em Manaus com 96% dos consumidores dispostos a comprar presentes

Pesquisa aponta alta intenção de consumo e expectativa positiva para o varejo da capital...

Terapia celular brasileira contra o câncer tem 87,5% de eficácia e chegará ao SUS

Os resultados preliminares de um estudo clínico conduzido no Brasil trazem uma nova perspectiva...

Amazonas sedia Caravana de Inovação da Advocacia-Geral da União

O Estado do Amazonas tornou-se o pioneiro da região Norte a receber a Caravana...

UE anuncia parceria digital com Brasil para reduzir dependência de EUA e China

A União Europeia firmou um acordo estratégico de parceria digital com o Brasil com...

Mais como este

Dia dos Namorados impulsiona comércio em Manaus com 96% dos consumidores dispostos a comprar presentes

Pesquisa aponta alta intenção de consumo e expectativa positiva para o varejo da capital...

Terapia celular brasileira contra o câncer tem 87,5% de eficácia e chegará ao SUS

Os resultados preliminares de um estudo clínico conduzido no Brasil trazem uma nova perspectiva...

Amazonas sedia Caravana de Inovação da Advocacia-Geral da União

O Estado do Amazonas tornou-se o pioneiro da região Norte a receber a Caravana...