Investigação aponta que minério extraído de áreas protegidas teria sido incorporado ao mercado formal após refino e vendido em cadeias de grandes multinacionais.
A cassiterita ilegal retirada da Terra Indígena Yanomami e do Parque Nacional dos Campos Amazônicos teria chegado à cadeia de suprimentos de algumas das maiores empresas do mundo depois de passar por um processo de documentação e refino que dificultava identificar sua origem. Documentos da Operação Forja de Hefesto, da Polícia Federal, e apurações do Ministério Público Federal obtidos pelo jornal O Globo detalham como funcionava o esquema.
📲Quer receber notícias direto no celular? Entre no nosso grupo no WhatsApp.
No centro da investigação está a White Solder, empresa brasileira apontada como uma das maiores produtoras e fornecedoras de estanho e soldas do mundo. A companhia virou ré na Justiça Federal sob acusação de liderar uma estrutura de receptação, refino e “esquentamento” de minério ilegal que movimentou ao menos R$ 200 milhões entre 2020 e 2025.
Entre maio e agosto de 2021, registros contábeis apreendidos pela PF indicaram o escoamento clandestino de mais de 525 toneladas de cassiterita. A White Solder tem sede em Ribeirão Preto, em São Paulo, e filiais em Manaus e Ariquemes, em Rondônia.
Cassiterita ilegal chegava ao mercado com documentação formal
A investigação aponta que a Cooperativa de Produtores de Estanho do Brasil, a Coopertin, era usada para atribuir origem legal ao minério. A entidade mantinha sede em Boa Vista sem atividade operacional ou funcionários, mas emitia guias e notas fiscais que simulavam a procedência de lavras autorizadas pela Agência Nacional de Mineração.
Em cinco meses, R$ 166,3 milhões movimentados pela cooperativa vieram da White Solder. A fundidora respondeu por 97,6% dos créditos da Coopertin no período. Nelcides de Almeida Mello, intermediário apontado nas investigações e morto no mês passado em acidente de trânsito, recolhia a cassiterita antes da emissão da documentação falsa.
Em Ariquemes, minério retirado da Terra Indígena Yanomami era misturado à produção legal de Rondônia e encaminhado para refino. Após ser transformada em lingotes de alta pureza, a cassiterita perdia características físicas capazes de indicar sua procedência.
Mesmo com selos como o LME Brand, da Bolsa de Metais de Londres, e o aval da Responsible Minerals Initiative, o MPF sustenta que a White Solder atuava sob “cegueira deliberada” e greenwashing. Mensagens encontradas no celular do sócio-administrador Alessandro Torrente indicariam que a fundidora custeava uma filial de fachada em Roraima e administrava o frete do minério clandestino.
Multinacionais aparecem na cadeia de fornecimento
O cruzamento feito pelos procuradores entre auditorias da White Solder e dados da SEC, a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos, mostrou a fundidora como fornecedora ativa de estanho nos balanços de grandes companhias listadas nas bolsas americanas.
A investigação relaciona a cadeia de suprimentos a empresas como Apple, Microsoft, Amazon, Walt Disney, Sony, Starbucks, Caterpillar, PepsiCo, Colgate-Palmolive, Victoria’s Secret e Levi´s. Dez multinacionais com atuação no Brasil foram notificadas na apuração cível por falhas em mecanismos de due diligence socioambiental e de direitos humanos.
O MPF estabeleceu indenização de R$ 1,7 bilhão com caráter pedagógico e reparatório pelos danos atribuídos à cadeia de extração, transporte, industrialização e comercialização de cassiterita e ouro ilegal. Também pede indenização mínima de R$ 43 milhões por danos materiais e R$ 100 milhões por danos morais coletivos e sociais destinados diretamente ao povo Yanomami.
“Eu estou pedindo esses valores com base em casos análogos. Meus critérios foram, em síntese, gravidade dos fatos, sofisticação do esquema criminoso, capacidade econômica dos infratores e tempo de duração da atividade ilícita”, afirmou o procurador André Luiz Porreca, do 2º Ofício da Amazônia Ocidental.
Garimpo avança sobre áreas protegidas
Nos garimpos do Baixinho e da Pupunha, em território Yanomami, a investigação identificou uma estrutura com escavadeiras, bombas, equipes especializadas e logística aérea clandestina. Valdeci Aparecido Cardoso, conhecido como “Keké”, é apontado como responsável pela coordenação de equipes e prestação de contas a financiadores e sócios, entre eles Jidalias dos Anjos Pinto, o “Tiziu”, ex-deputado estadual, e o piloto Felipe José da Silva Galvão.
Dario Kopenawa, presidente da Associação Hutukara Yanomami, afirma que a pressão pela cassiterita cresceu nos últimos anos. “Até três, quatro anos atrás, nós não tínhamos noção de que a procura por cassiterita estava forte. Agora só se fala nisso aqui”, afirmou.
No Parque Nacional dos Campos Amazônicos, imagens do Censipam apontaram 193 hectares de floresta devastados e 15 pistas clandestinas no parque e em sua zona de amortecimento. O MPF afirma ainda que a White Solder comprou mais de 12 mil toneladas de cassiterita da Coopertin entre 2022 e 2024 sem comprovação de origem.
A investigação também identificou monazita, ilmenita e columbita nos rejeitos do beneficiamento, além de Ítrio. Esses minerais estão associados a terras raras, nióbio e tântalo. Segundo as perícias, equipamentos como jigues e separadores magnéticos passaram a ser utilizados para recuperar esses materiais.
A cassiterita dá origem ao estanho usado em soldas de microchips, servidores de nuvem, inteligência artificial e tecnologias da transição energética. O metal aparece no texto-base cotado na Bolsa de Metais de Londres em cerca de US$ 55 mil por tonelada, aproximadamente US$ 55 por quilo, equivalente a R$ 250.
Brasil não tem sistema nacional de rastreabilidade
O Serviço Geológico do Brasil informou que ainda não existem estudos de rastreabilidade para a cassiterita semelhantes aos que começam a ser desenvolvidos para o ouro. A ANM também reconheceu que o país não possui um sistema nacional capaz de acompanhar o minério da extração até sua transformação industrial.
“Absolutamente nenhum”, respondeu Porreca ao ser questionado sobre a existência de mecanismos de rastreabilidade da cassiterita no Brasil.
A White Solder não se manifestou ao O Globo. As defesas dos acusados negaram envolvimento. A Amazon afirmou não manter relação comercial direta com a fundidora e informou que está reforçando exigências de verificação junto a fornecedores associados às fundições identificadas. A Walt Disney Company Brasil declarou não ter sido citada no inquérito mencionado e, por isso, não comentaria a investigação.
Leia mais:
Ibama autoriza Petrobras a avançar na Foz do Amazonas
Justiça exige plano para atendimento a vítimas de violência sexual em São Gabriel da Cachoeira
UE suspende importações de carnes do Brasil; o que acontece na prática?
Siga nosso perfil no Instagram, Tiktok e curta nossa página no Facebook


