Coalizão liderada pelos Estados Unidos prevê sanções, troca de inteligência e ações coordenadas contra grupos criminosos; Brasil não integra a iniciativa
O Escudo das Américas, coalizão criada pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ampliou nesta semana sua ofensiva contra organizações criminosas da América Latina e colocou novamente o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) no centro da estratégia de Washington para a região.
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Nesta terça-feira (22), Estados Unidos e outros 14 países divulgaram uma declaração conjunta propondo medidas coordenadas contra 24 organizações classificadas pelo governo americano como grupos terroristas ligados ao narcotráfico. Entre elas estão as duas facções brasileiras. As medidas podem incluir bloqueio de bens, restrições migratórias e outras sanções, observadas as legislações de cada país integrante.
A iniciativa faz parte do Escudo das Américas, lançado em março pelo governo Trump com o objetivo declarado de ampliar a cooperação regional contra o crime organizado transnacional, o tráfico de drogas e outras ameaças consideradas estratégicas pelos Estados Unidos.
Além da área de segurança, a declaração divulgada nesta semana revela que a aliança possui objetivos mais amplos. O documento menciona cooperação econômica, proteção das cadeias de fornecimento de minerais críticos e criação de regras para fornecedores considerados confiáveis na infraestrutura digital.
O que é o Escudo das Américas
O Escudo das Américas funciona como uma estrutura de articulação entre Washington e governos da América Latina e do Caribe. Entre suas propostas estão o compartilhamento de informações de inteligência, cooperação entre forças de segurança e coordenação de medidas contra organizações criminosas.
Trump definiu a aliança, durante encontro realizado em Nova York na terça-feira, como uma parceria voltada à segurança nacional e econômica do Hemisfério Ocidental.
A coalizão reúne 19 países: Estados Unidos, Argentina, Bahamas, Belize, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Guiana, Honduras, Jamaica, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Trinidad e Tobago.
Nem todos, porém, assinaram a declaração divulgada nesta terça-feira. O documento recebeu o apoio dos Estados Unidos e de 14 países latino-americanos e caribenhos.
Brasil e México não fazem parte da iniciativa.
PCC e CV entram na estratégia dos Estados Unidos
A ofensiva ocorre depois de Washington ampliar o uso da classificação de organizações terroristas contra grupos envolvidos no tráfico internacional de drogas.
O governo Trump incluiu o PCC e o Comando Vermelho entre as organizações enquadradas nessa estratégia. O governo brasileiro discorda dessa classificação e sustenta que o combate às facções deve ocorrer dentro das regras brasileiras de enfrentamento ao crime organizado, sem equipará-las automaticamente a grupos terroristas.
Apesar da divergência, Brasil e Estados Unidos mantêm cooperação bilateral na área de segurança. Em maio, os dois países formalizaram um novo acordo para ampliar a troca de informações sobre organizações criminosas transnacionais, incluindo compartilhamento de inteligência em tempo real.
Trump endurece discurso contra cartéis
A expansão do Escudo das Américas ocorreu no mesmo dia em que Trump discursou na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York.
No pronunciamento, o presidente americano afirmou que os Estados Unidos estão retomando uma postura mais ativa no Hemisfério Ocidental e declarou que Washington poderá empregar poder militar para proteger interesses considerados vitais pelo país.
Trump também comparou cartéis de drogas que atuam na região ao Estado Islâmico e defendeu uma ofensiva mais dura contra integrantes dessas organizações.
Em outro encontro com representantes do Escudo das Américas, o presidente pediu que os países da coalizão reconheçam formalmente as 24 organizações listadas por Washington como ameaças comuns e adotem sanções contra elas.
A postura reforça uma política adotada pela administração Trump desde o início de seu atual mandato, quando os Estados Unidos passaram a tratar parte das organizações criminosas latino-americanas como ameaças à segurança nacional americana.
Brasil mantém distância da coalizão
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não aderiu ao Escudo das Américas e tem manifestado preocupação com iniciativas que possam abrir espaço para intervenções estrangeiras em países da região.
Durante seu discurso na Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira, Lula afirmou que o Brasil não aceita ficar sob a esfera de influência de outras potências e criticou o que classificou como tentações hegemônicas nas relações internacionais.
A posição brasileira contrasta com a política defendida pela Casa Branca, embora os dois governos mantenham mecanismos específicos de cooperação policial e de inteligência.
Especialistas veem objetivos além do narcotráfico
Analistas avaliam que a composição e as propostas do Escudo das Américas indicam que a iniciativa não se limita ao combate ao tráfico de drogas.
Sandra Pellegrini, da Armed Conflict Location and Event Data, avalia que a ausência de Brasil e México, países onde atuam algumas das maiores organizações criminosas da região, reduz o alcance operacional de uma estratégia continental contra o narcotráfico.
Segundo a analista, a configuração da aliança também pode refletir afinidades políticas entre os governos participantes.
Florencia Rubiolo, especialista em relações internacionais e diretora do Insight 21, da Universidade Siglo 21, na Argentina, considera que a iniciativa também pode ser interpretada como parte de uma tentativa dos Estados Unidos de reforçar sua influência política e econômica na América Latina diante do crescimento da presença chinesa na região.
Já representantes de organizações de direitos humanos alertam que qualquer estratégia de segurança precisa respeitar o Estado de Direito e fortalecer os sistemas de Justiça dos países envolvidos.
Declaração inclui economia, minerais e infraestrutura digital
O texto assinado pelos integrantes da iniciativa nesta terça-feira reforça essa dimensão mais ampla.
Além do combate às organizações criminosas, os países declararam intenção de aumentar a cooperação econômica, proteger cadeias de abastecimento de minerais considerados estratégicos e estimular regras para o uso de fornecedores confiáveis em infraestrutura digital.
Esses pontos colocam o Escudo das Américas também no centro da disputa geopolítica entre Estados Unidos e outras potências pela influência econômica e tecnológica na América Latina.
Com PCC e Comando Vermelho entre os grupos diretamente mencionados pela estratégia americana, as próximas medidas da coalizão deverão ser acompanhadas de perto pelo Brasil, principalmente diante das divergências entre Brasília e Washington sobre a classificação jurídica das facções e os limites para ações de segurança conduzidas pelos Estados Unidos na região.
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