Inteligência artificial, soberania digital, data centers, serviços públicos, conectividade e terras raras aparecem entre as prioridades dos seis programas analisados
As propostas dos presidenciáveis para tecnologia mostram que a transformação digital passou a ocupar um espaço central nos planos de governo para 2026. Inteligência artificial, infraestrutura digital, ciência, conectividade, dados e desenvolvimento industrial aparecem relacionados a áreas como saúde, educação, segurança, produção e soberania nacional.
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Um levantamento do Laboratório Interdisciplinar de Inteligência Artificial para Métodos, Democracia e Sociedade, o <labiia_lab>, analisou os programas de governo de Augusto Cury, Flávio Bolsonaro, Luiz Inácio Lula da Silva, Renan Santos, Romeu Zema e Ronaldo Caiado para identificar como cada candidatura pretende conduzir a agenda tecnológica do país.
O relatório “Quem tem um plano para o futuro digital do Brasil?”, examinou 592 páginas dos seis programas e identificou 98 promessas relacionadas diretamente a tecnologia, inteligência artificial, ciência, educação digital ou soberania tecnológica.
Além de identificar as propostas, os pesquisadores observaram se elas apresentavam elementos que permitissem acompanhar posteriormente sua execução, como instrumentos previstos, órgãos responsáveis, prazos, fontes de financiamento e metas mensuráveis.
O estudo ressalta, porém, que esses indicadores não avaliam se determinada proposta é melhor, mais adequada ou financeiramente viável. Eles mostram principalmente o grau de detalhamento apresentado por cada programa.
Augusto Cury relaciona IA a educação, saúde e indústria
No programa de Augusto Cury, a inteligência artificial aparece associada principalmente à formação profissional, educação, saúde e modernização da indústria.
Entre as propostas identificadas pelo levantamento estão iniciativas relacionadas à incorporação de IA na formação educacional, preparação dos trabalhadores para transformações provocadas pela tecnologia, modernização industrial, combate a fraudes e utilização de ferramentas tecnológicas na prevenção de incêndios.
Cury é também o candidato cujo programa mais utiliza a expressão “inteligência artificial”, com 56 ocorrências identificadas pelo estudo.
O número de citações, entretanto, não significa necessariamente maior detalhamento das políticas. Segundo o relatório, algumas das propostas apresentadas deixam indefinidos pontos como custos, divisão de responsabilidades entre órgãos públicos e etapas de implantação.
Flávio Bolsonaro aposta em serviços públicos digitais
A agenda apresentada por Flávio Bolsonaro concentra parte significativa das propostas tecnológicas na digitalização dos serviços públicos.
Entre as iniciativas destacadas pelo estudo aparecem o projeto “Brasil sem Fila”, identidade digital, integração de prontuários médicos e utilização de inteligência artificial na organização de agendas e atendimentos da área de saúde.
O programa também menciona uma assistente virtual denominada ClarIA e prevê a utilização de estruturas digitais já existentes no governo federal, incluindo a plataforma Gov.br e sistemas públicos de compartilhamento de informações de saúde.
O relatório observa, entretanto, que há menos detalhamento sobre custos de integração dos sistemas, auditoria das decisões automatizadas e indicadores destinados a medir a qualidade dos serviços.
Outro ponto levantado é a necessidade de considerar cidadãos com dificuldade de acesso ou utilização de plataformas digitais, mantendo alternativas para serviços que passarem por processos de digitalização.
Lula associa tecnologia a soberania digital e indústria
O programa de Luiz Inácio Lula da Silva apresenta a tecnologia principalmente dentro de uma estratégia de soberania digital, desenvolvimento industrial e fortalecimento da capacidade tecnológica brasileira.
Entre os temas presentes estão infraestrutura de dados, computação em nuvem, instalação de data centers, ampliação da conectividade, desenvolvimento de modelos de linguagem em português, regulação tecnológica e expansão de serviços digitais do governo.
Parte das propostas está vinculada a políticas públicas já existentes, como a Nova Indústria Brasil, o Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações e o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial.
A Nova Indústria Brasil possui entre suas metas ampliar a transformação digital das empresas industriais brasileiras até 2033. Já o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê investimentos de aproximadamente R$ 23 bilhões entre 2024 e 2028.
O Fust, por sua vez, vem sendo utilizado para financiar projetos de expansão de conectividade, inclusive em escolas públicas e entre pequenos e médios provedores de internet.
Segundo a análise do <labiia_lab>, a existência dessas estruturas fornece uma base institucional para parte das propostas, embora diversas medidas do programa ainda apareçam como diretrizes gerais, sem definição individual de orçamento, prazo ou meta para um eventual novo mandato.
Renan Santos concentra propostas em IA e minerais estratégicos
Renan Santos apresenta uma agenda tecnológica fortemente relacionada à exploração de minerais críticos, terras raras e aplicação de inteligência artificial no agronegócio.
Entre os mecanismos mencionados pelo programa estão zonas econômicas especiais, contratos de compra futura, parcerias público-privadas, fundos de garantia e etapas de implantação de projetos.
Essa concentração faz com que algumas propostas apresentem instrumentos de implementação e estimativas financeiras mais claramente identificáveis.
Por outro lado, segundo o relatório, o programa dedica menor espaço a áreas como direitos digitais, digitalização dos serviços públicos, educação digital e impactos sociais provocados pela automação do mercado de trabalho.
As terras raras aparecem com frequência na agenda do candidato por sua importância para cadeias produtivas relacionadas a semicondutores, eletrônicos, equipamentos tecnológicos e outras indústrias consideradas estratégicas.
Zema relaciona tecnologia a produtividade e investimentos
No programa de Romeu Zema, a política tecnológica está ligada principalmente à produtividade, atração de investimentos e participação do setor privado.
Data centers, biotecnologia, terras raras, pesquisa aplicada e digitalização dos serviços públicos aparecem entre os principais assuntos tecnológicos identificados pelo levantamento.
Na área científica e universitária, o programa também propõe relacionar parte dos mecanismos de financiamento e bolsas acadêmicas a resultados e à demanda por pesquisa aplicada.
A proposta estabelece uma abordagem voltada para utilização econômica e produtiva do conhecimento científico, ao mesmo tempo em que coloca em debate como seriam tratadas pesquisas básicas ou áreas acadêmicas cujos resultados podem surgir apenas no longo prazo.
Caiado inclui semicondutores, cibersegurança e regulação da IA
Ronaldo Caiado apresenta propostas distribuídas por diferentes áreas da política tecnológica.
O programa inclui pesquisa científica, infraestrutura digital, indústria de semicondutores, conectividade, formação profissional, cibersegurança, digitalização do governo e desenvolvimento de modelos de inteligência artificial em português.
Também aparecem propostas relacionadas à regulação da IA de acordo com o nível de risco das aplicações.
Segundo o relatório, o programa prevê mecanismos como avaliação dos sistemas, supervisão humana, validação e auditoria em determinadas aplicações de inteligência artificial.
Parte dessas medidas ainda não apresenta orçamento fechado ou um calendário nacional completo de implantação, mas o estudo identificou instrumentos e critérios de acompanhamento em diversas propostas.
Número de menções não significa política mais detalhada
A quantidade de vezes que determinadas expressões aparecem nos programas mostra diferenças importantes entre as campanhas, mas não permite, isoladamente, avaliar a profundidade das propostas.
Segundo o levantamento, Augusto Cury menciona “inteligência artificial” 56 vezes. Ronaldo Caiado aparece com 34 ocorrências, Flávio Bolsonaro com 21, Lula e Renan Santos com 11 cada e Romeu Zema com quatro.
Os documentos, porém, possuem extensões diferentes. Os programas de Cury e Caiado têm aproximadamente 40 mil palavras cada, enquanto os outros quatro ficam próximos de 20 mil.
Quando o tamanho dos documentos é considerado, por exemplo, Lula apresenta proporcionalmente a maior frequência de referências à inovação, segundo a metodologia utilizada pelo estudo.
A análise encontrou 22 promessas relacionadas à tecnologia no programa de Caiado, 18 no de Cury, 16 no de Lula, 15 no de Renan Santos, 14 no de Zema e 13 no de Flávio Bolsonaro.
Esses números não representam uma classificação da qualidade das propostas. Uma quantidade maior pode significar uma agenda mais extensa, enquanto um conjunto menor pode apresentar medidas mais concentradas ou detalhadas.
Estudo avalia capacidade de acompanhamento das promessas
Para verificar o grau de detalhamento das propostas, os pesquisadores analisaram cinco elementos em cada promessa identificada: instrumento previsto para implantação, órgão ou responsável, prazo ou etapas, financiamento e meta mensurável.
O objetivo foi verificar quanto cada programa fornece elementos que permitam posteriormente acompanhar o cumprimento das propostas.
O próprio relatório ressalta que esse indicador não determina se uma política é tecnicamente adequada, desejável ou financeiramente viável.
Uma política com prazo, orçamento, responsáveis e metas, por exemplo, pode ser mais facilmente fiscalizada posteriormente do que uma proposta apresentada apenas como objetivo geral de governo.
O estudo também registra limitações metodológicas. A codificação das 98 promessas foi realizada por um único codificador e não houve teste de concordância entre diferentes avaliadores. Além disso, 29 páginas dos documentos não possuíam texto extraível e ficaram fora das contagens utilizadas pelo levantamento.
Tecnologia entra no centro das escolhas para os próximos anos
Apesar das diferenças entre os programas, a análise mostra que a política tecnológica deixou de ser tratada apenas como ferramenta administrativa.
Os candidatos apresentam caminhos distintos para questões como inteligência artificial, infraestrutura digital, produção de semicondutores, minerais estratégicos, serviços públicos digitais, formação profissional, soberania de dados e desenvolvimento científico.
O relatório não aponta qual candidatura possui a melhor proposta. A comparação mostra que cada programa prioriza áreas diferentes e apresenta graus distintos de detalhamento.
Para o eleitor, as propostas permitem observar não apenas quanto cada candidatura fala sobre tecnologia, mas qual papel pretende atribuir ao Estado, ao setor privado e à ciência na transformação digital do país e quais compromissos concretos poderão ser cobrados após a eleição.
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