Planos de governo dos candidatos à Presidência divergem sobre financiamento, gestão universitária, inovação tecnológica e valorização de pesquisadores
Lula e Flávio Bolsonaro apresentam propostas distintas para o ensino superior, a pesquisa científica e a pós-graduação no Brasil. Os candidatos à Presidência da República, que disputam o segundo turno das eleições de 2026, divergem sobre financiamento, gestão das universidades, inovação tecnológica e valorização dos pesquisadores.
Uma reportagem publicada pela revista Superinteressante, nesta quinta-feira (15), analisou os planos de governo dos dois presidenciáveis e reuniu avaliações de especialistas sobre cinco temas relacionados ao desenvolvimento científico e à educação superior.
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O levantamento contou com a participação de José Eduardo Krieger, professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e ex-pró-reitor de Pesquisa da instituição, e Victor Hugo de Oliveira Colmanetti, pesquisador do Observatório de Regionalismo e mestrando do Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas.
Para preservar a independência das avaliações, os especialistas receberam os trechos dos programas sem a identificação dos candidatos.
Entre as principais diferenças estão a organização administrativa das universidades federais, a destinação de recursos para pesquisas, a participação de empresas no desenvolvimento tecnológico e as políticas de incentivo à carreira científica.
Gestão das universidades federais
Uma das principais diferenças entre os programas está na estrutura administrativa responsável pelo ensino superior.
Flávio Bolsonaro propõe transferir a gestão das universidades federais do Ministério da Educação (MEC) para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). A proposta busca reunir as atividades de pesquisa e ensino superior em uma mesma estrutura ministerial.
Lula, por sua vez, defende a manutenção das universidades sob a coordenação do MEC, acompanhada de uma nova etapa de expansão e interiorização do ensino superior público.
O programa do atual presidente também prevê a criação e consolidação de instituições, incluindo a Universidade Indígena, a Universidade do Esporte e uma unidade do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) no Ceará.
Na avaliação de Colmanetti, a transferência das universidades para o MCTI exigiria adaptações administrativas envolvendo programas e instituições atualmente vinculados à estrutura do MEC.
Krieger considera que a reorganização poderia facilitar a integração de determinadas atividades científicas, mas destaca que a mudança administrativa, isoladamente, não garante melhorias na coordenação das políticas públicas.
Sobre a proposta de Lula, o professor aponta a necessidade de avaliar os custos permanentes de novas instituições e comparar essa alternativa com o fortalecimento das universidades existentes.
Prioridades para a pesquisa científica
Os planos também apresentam enfoques diferentes sobre os objetivos e as aplicações da pesquisa desenvolvida no país.
Flávio Bolsonaro propõe que instituições de fomento, como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ampliem a prioridade dada a projetos com impacto produtivo, inovação e transferência de tecnologia.
O candidato também defende o estímulo a cursos de pós-graduação voltados às necessidades do mercado de trabalho, incluindo modalidades financiadas por empresas.
Já Lula apresenta a pesquisa científica como parte de uma estratégia de desenvolvimento nacional, associando universidades, instituições públicas e empresas a projetos de longo prazo.
Entre as prioridades previstas estão a transição ecológica, a descarbonização da economia e o fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde.
O programa também menciona iniciativas voltadas ao desenvolvimento de insumos farmacêuticos a partir da biodiversidade amazônica e ao sequenciamento genômico para aplicações no Sistema Único de Saúde (SUS).
Na análise publicada pela Superinteressante, os especialistas destacam a importância de conciliar a aplicação comercial do conhecimento com a manutenção da pesquisa básica, incluindo áreas que não apresentam retorno econômico imediato.
Inovação tecnológica e participação do Estado
A relação entre governo, universidades e iniciativa privada representa outro ponto de diferença.
Flávio Bolsonaro defende um modelo de inovação com maior participação do setor privado, no qual o Estado atua como comprador de soluções tecnológicas e incentivador do desenvolvimento empresarial.
O plano inclui o uso de compras públicas para estimular novas tecnologias, além de iniciativas destinadas a ampliar a utilização de inteligência artificial por micro, pequenas e médias empresas.
Também prevê medidas para simplificar exigências regulatórias e facilitar investimentos em inovação.
Lula propõe um modelo no qual o governo federal participa da coordenação de projetos tecnológicos, utilizando instrumentos de financiamento público, compras governamentais e parcerias com universidades e empresas.
Entre os mecanismos mencionados estão as Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs), que permitem a articulação entre instituições públicas e privadas para o desenvolvimento e a produção de tecnologias consideradas estratégicas.
Krieger destaca, na avaliação dos programas, que a difusão de inteligência artificial entre empresas pode ampliar a utilização prática de novas tecnologias.
O especialista também observa que a combinação de financiamento, compras públicas e cooperação institucional pode contribuir para aproximar a produção científica das necessidades econômicas e sociais.
Financiamento das universidades e bolsas de pesquisa
O financiamento do ensino superior e das atividades científicas também aparece nos dois programas, com propostas direcionadas a mecanismos diferentes.
Flávio Bolsonaro defende um sistema de financiamento estudantil no qual o pagamento das parcelas esteja relacionado à renda obtida pelo estudante depois da conclusão do curso.
A proposta também inclui apoio a incubadoras, startups e parques tecnológicos, com incentivo à participação empresarial no financiamento de atividades de formação e inovação.
Lula prevê a recomposição dos recursos destinados às universidades federais, a valorização das bolsas de pesquisa e a utilização do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) sem contingenciamentos.
Segundo a análise da revista, o modelo de financiamento estudantil vinculado à renda, apresentado por Flávio Bolsonaro, possui antecedentes na legislação brasileira.
Colmanetti lembra que a Lei nº 13.530/2017 já estabeleceu mecanismos de pagamento relacionados à remuneração dos beneficiários do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).
Nesse contexto, a avaliação considera que a implementação operacional será um dos aspectos relevantes para a execução da proposta.
Carreira científica e permanência de pesquisadores no Brasil
A formação, a valorização profissional e a permanência de pesquisadores no país completam os cinco temas analisados.
Flávio Bolsonaro relaciona a retenção de profissionais qualificados ao crescimento de empresas de base tecnológica, startups e oportunidades de emprego especializadas.
A proposta busca ampliar a absorção de pesquisadores pelo setor produtivo, especialmente em atividades relacionadas à inovação e ao desenvolvimento de novas tecnologias.
Lula apresenta medidas voltadas à atração e à permanência de pesquisadores no Brasil, incluindo o Programa Conhecimento Brasil, destinado a incentivar a fixação e o retorno de profissionais que atuam na área científica.
O programa oferece bolsas e mecanismos de apoio para pesquisadores desenvolverem suas atividades no país.
De acordo com os dados apresentados na reportagem da Superinteressante, a iniciativa contabilizava 599 pesquisadores aprovados.
Na avaliação de Colmanetti, o número representa uma escala ainda limitada diante do desafio de ampliar as oportunidades para profissionais com formação científica avançada.
O especialista também observa que o programa de Flávio Bolsonaro enfatiza a inserção no mercado de trabalho, enquanto apresenta menos detalhes sobre estruturas específicas de carreira acadêmica e bolsas de pesquisa.
Propostas serão discutidas no segundo turno
As diferenças entre os programas mostram duas abordagens para a organização da pesquisa e do ensino superior brasileiro.
Lula apresenta propostas centradas na manutenção e expansão das estruturas públicas, no financiamento governamental e na articulação entre ciência e políticas de desenvolvimento.
Flávio Bolsonaro prioriza a aproximação entre universidades e empresas, a aplicação produtiva do conhecimento e a ampliação de oportunidades de formação e trabalho vinculadas ao setor privado.
As medidas apresentadas integram os planos de governo registrados pelos candidatos e dependem, em diferentes graus, de decisões administrativas, disponibilidade orçamentária e eventuais alterações legislativas para serem implementadas.
Os documentos podem ser consultados no site oficial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Esta reportagem foi elaborada com base em levantamento publicado pela revista Superinteressante, de autoria da jornalista Maria Clara Rossini, em 15 de outubro de 2026, com análises dos pesquisadores José Eduardo Krieger e Victor Hugo de Oliveira Colmanetti.
Com informações de Superinteressante
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