No Brasil, a polêmica ganhou força depois que o blogueiro Paulo Figueiredo afirmou, durante uma transmissão ao vivo, que “as mulheres votam muito mal”, argumentando que elas tenderiam a apoiar candidatos de esquerda. A declaração provocou reações políticas e reabriu um debate que remete aos primórdios da luta pelo sufrágio feminino.
Voto feminino volta ao centro da disputa política
A defesa de restrições ao voto das mulheres não se limitou às declarações de Paulo Figueiredo. O partido Missão, criado por integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL), incluiu em seu chamado Livro Amarelo a proposta de uma “democracia familiar”, modelo em que haveria apenas um voto por família, substituindo o voto individual.
Uma das lideranças da legenda, Orlando Lima, também declarou que o sufrágio universal seria o maior problema da democracia. O partido lançou Renan Santos como candidato à Presidência, mas não respondeu aos questionamentos da DW.
Para a professora de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Tatiana Vargas-Maia, a retomada dessa pauta durante a campanha eleitoral não ocorre por acaso.
Segundo ela, partidos e grupos políticos frequentemente testam temas capazes de mobilizar parcelas específicas do eleitorado.
“Eles sabem que essa estratégia eleitoral, que já foi testada, é bem-sucedida, por isso a gente vê um reengajamento com uma nova pauta incendiária. Além disso, tem muita gente que começa a aparecer para um público mais amplo quando embarca nessas pautas”, afirmou.
A pesquisadora acrescenta que o questionamento ao voto feminino também dialoga com uma contestação mais ampla da autonomia conquistada pelas mulheres nas últimas décadas. Para ela, a defesa do fim do sufrágio feminino representa apenas uma parte de um movimento que busca restabelecer modelos familiares mais hierarquizados.
A origem histórica do debate sobre o voto feminino
A historiadora Monica Karawejczyk destaca que o discurso atual resgata argumentos utilizados ainda no século XIX e durante a Assembleia Constituinte de 1890, quando parlamentares discutiam se as mulheres deveriam ser reconhecidas como cidadãs com direito ao voto.
Segundo ela, naquela época predominava a ideia de que as mulheres votariam movidas pela emoção e não teriam capacidade para participar das decisões políticas.
A pesquisadora também ressalta que não existe um comportamento eleitoral homogêneo entre as mulheres. Fatores como renda, raça, profissão e realidade social influenciam prioridades diferentes entre as eleitoras.
O direito ao voto feminino foi conquistado oficialmente no Brasil em 1932 e passou a integrar a história da ampliação dos direitos políticos no país.
Movimento semelhante cresce nos Estados Unidos
Nos Estados Unidos, a discussão ganhou força após as eleições de 2016, quando pesquisas identificaram o chamado “gender gap”, fenômeno segundo o qual mulheres tendem, em média, a votar mais em candidatos democratas, enquanto homens demonstram maior preferência por republicanos.
Nos últimos meses, influenciadores, pastores e integrantes da direita religiosa voltaram a defender publicamente a revogação da 19ª Emenda da Constituição americana, que garantiu o voto feminino em 1920.
Entre eles está o influenciador Nick Fuentes, que declarou que retiraria esse direito caso fosse presidente. Já líderes religiosos como Doug Wilson e Jared Longshore defendem um modelo de Estado baseado em princípios religiosos, no qual apenas um integrante da família exerceria o direito ao voto.
No Brasil, a influenciadora conservadora Pietra Bertolazzi também repercutiu nas redes sociais ao declarar ser contrária ao voto feminino.
Peso eleitoral das mulheres dificulta avanço da proposta
Dados do Tribunal Superior Eleitoral mostram que as mulheres representam 83,8 milhões de eleitores, o equivalente a 52,8% do eleitorado brasileiro. Em disputas equilibradas, esse contingente pode ser decisivo para o resultado da eleição presidencial.
Para o cientista político Felipe Nunes, autor do livro O Brasil no Espelho: Um guia para entender o Brasil e os brasileiros, discursos contra o voto feminino tendem a produzir mais prejuízos do que ganhos eleitorais.
Segundo ele, esse tipo de posicionamento pode mobilizar apenas uma pequena parcela de eleitores altamente ideologizados, mas dificulta a aproximação com mulheres moderadas e independentes, que frequentemente definem eleições competitivas.
Após a repercussão negativa das declarações de Paulo Figueiredo, o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro afirmou que o influenciador não integra sua campanha e declarou repudiar as falas sobre as mulheres.
Pesquisa do Instituto Datafolha, divulgada em 22 de julho, aponta que Flávio Bolsonaro registra 40% das intenções de voto entre as mulheres em um eventual segundo turno, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece com 50%.
Segundo Felipe Nunes, não há evidências de que as mulheres sejam naturalmente mais alinhadas à esquerda ou à direita. Para ele, eleitoras costumam ser menos receptivas a discursos agressivos ou que coloquem em dúvida direitos já consolidados, priorizando temas ligados ao cotidiano, como inflação, renda, saúde, educação e segurança.
O voto feminino pode ser revogado no Brasil?
A bancada feminina da Câmara dos Deputados pediu à Procuradoria-Geral da União a investigação das declarações de Paulo Figueiredo e do conteúdo da cartilha do partido Missão, sob o argumento de que as manifestações podem configurar violência política de gênero e propaganda discriminatória.
Apesar da repercussão, especialistas afirmam que a possibilidade de o Brasil revogar o voto feminino é extremamente limitada.
Diferentemente dos Estados Unidos, onde o direito está previsto em uma emenda constitucional, no Brasil o voto direto, secreto, universal e periódico integra as cláusulas pétreas da Constituição Federal. Isso significa que esse princípio não pode ser alterado por meio de emenda constitucional, exigindo a elaboração de uma nova Constituição.
Ainda assim, pesquisadores alertam que a circulação de discursos que questionam direitos consolidados merece atenção por seu potencial de ampliar os limites do debate público e normalizar propostas antes consideradas inaceitáveis.
Leia mais:
Justiça Eleitoral e Justiça do Trabalho lançam campanha contra assédio
Lula busca conversa com Trump para conter crise diplomática e propor mediação global
MP recomenda ampliação do uso de pregão eletrônico em licitações da Prefeitura de Manaquiri
Siga nosso perfil no Instagram, Tiktok e curta nossa página no Facebook


