Ampliação dos critérios, maior acesso ao diagnóstico, genética e fatores ambientais estão entre as hipóteses estudadas para explicar o crescimento registrado nas últimas décadas
Os diagnósticos de autismo aumentaram de forma expressiva nas últimas décadas, levando pesquisadores a investigar quanto desse crescimento representa uma elevação real da ocorrência do Transtorno do Espectro Autista (TEA) e quanto está relacionado à ampliação dos critérios diagnósticos e à maior identificação dos casos.
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A expansão dos diagnósticos de autismo pode ser observada em diferentes países. Nos Estados Unidos, estimativas que décadas atrás apontavam o autismo como uma condição relativamente rara deram lugar a números muito maiores. No Brasil, o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) identificou cerca de 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista.
A mudança despertou uma questão que ainda mobiliza pesquisadores de diferentes áreas: existem realmente mais pessoas autistas ou a sociedade passou a identificar casos que anteriormente não recebiam o diagnóstico?
Não há uma resposta única. Especialistas avaliam que fatores genéticos, ambientais, mudanças nos critérios médicos e maior acesso à avaliação especializada podem contribuir, em proporções diferentes, para o cenário atual.
Critérios de diagnóstico mudaram ao longo das décadas
Parte importante do crescimento pode estar relacionada à própria evolução do conceito de autismo.
Quando o psiquiatra Leo Kanner descreveu o chamado “autismo infantil precoce”, em 1943, a condição era associada principalmente a manifestações consideradas mais intensas.
Décadas depois, pesquisadores passaram a compreender que essas características poderiam aparecer de formas e intensidades bastante diferentes entre as pessoas. Surgiu, assim, o conceito de espectro.
A mudança foi incorporada ao Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o DSM, que atualmente considera dificuldades persistentes de comunicação e interação social, além de padrões restritos ou repetitivos de comportamento.
Na prática, pessoas que provavelmente não seriam classificadas como autistas décadas atrás podem hoje preencher os critérios para TEA.
O professor Guilherme V. Polanczyk, do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), explica que os próprios critérios utilizados pelos profissionais mudaram ao longo do tempo.
Segundo ele, algumas crianças diagnosticadas atualmente apresentam características mais leves que, há dez anos, poderiam não ser consideradas suficientes para o diagnóstico.
Genética tem papel importante no autismo
Décadas de pesquisa mostram que a genética desempenha papel importante no autismo, embora não exista um único gene capaz de explicar todos os casos. Diversas alterações genéticas já foram identificadas em pessoas dentro do espectro, revelando uma condição muito mais complexa do que inicialmente se imaginava.
Em algumas famílias, a predisposição genética pode ser particularmente expressiva, inclusive com vários integrantes diagnosticados. Ao mesmo tempo, pesquisadores investigam de que maneira fatores externos podem interagir com essa predisposição durante o desenvolvimento do cérebro.
Estudos investigam fatores durante a gravidez
Entre as linhas de pesquisa estão situações capazes de interferir no ambiente intrauterino.
Entre os fatores já investigados está a exposição ao ácido valproico durante a gestação. Utilizado principalmente no tratamento de epilepsia e de algumas condições neurológicas e psiquiátricas, o medicamento aparece em pesquisas que identificaram maior frequência de autismo entre crianças expostas ainda no útero.
Os resultados levaram pesquisadores a aprofundar a investigação sobre como determinados medicamentos podem interferir no desenvolvimento fetal. Isso não significa, porém, que toda exposição resulte em autismo ou que um único fator seja suficiente para explicar o transtorno.
Outras pesquisas analisam medicamentos, exposição a determinados produtos químicos, condições metabólicas da gestante e diferentes características da gravidez.
Os resultados, entretanto, precisam ser interpretados com cautela. Encontrar maior frequência de autismo entre pessoas expostas a determinado fator não significa necessariamente comprovar que esse fator tenha causado o transtorno.
Idade dos pais também é investigada
A idade dos pais também aparece com frequência nas pesquisas sobre fatores associados ao autismo. Estudos realizados com grandes grupos populacionais encontraram aumento estatístico do risco conforme avança a idade materna ou paterna, embora a diferença permaneça pequena quando considerada individualmente.
Uma das hipóteses investigadas envolve alterações que podem surgir nas células reprodutivas ao longo dos anos. Os pesquisadores ressaltam, no entanto, que a idade não determina o diagnóstico e deve ser analisada juntamente com fatores genéticos, biológicos e ambientais.
Outras condições, como nascimento prematuro e alterações metabólicas durante a gestação, também aparecem em estudos sobre o tema. Nenhuma delas, isoladamente, explica o autismo. A investigação científica procura justamente compreender como diferentes fatores podem interagir com a predisposição genética durante o desenvolvimento.
Associação não significa causa
Essa distinção é fundamental na pesquisa sobre autismo.
Estudos observacionais podem mostrar que duas situações aparecem juntas com maior frequência, mas isso não prova que uma seja responsável pela outra.
Existem os chamados fatores de confusão, variáveis que podem influenciar simultaneamente tanto a exposição estudada quanto o resultado observado.
É por isso que determinados estudos iniciais podem apontar uma associação que desaparece quando os pesquisadores controlam fatores como genética familiar, outras condições de saúde e diferentes características da gestação.
Essa cautela também ajuda a combater informações falsas sobre as causas do autismo.
Talvez o exemplo mais conhecido de desinformação sobre o tema seja a alegação de que vacinas causariam autismo. A ideia ganhou projeção no fim da década de 1990 a partir de um trabalho posteriormente desacreditado e retirado da literatura científica. Desde então, pesquisas realizadas com grandes populações não encontraram evidências de relação causal entre vacinação e autismo.
A desinformação sobre as causas do autismo também alimenta práticas perigosas. Em outra reportagem, mostramos como grupos nas redes sociais promovem uma falsa “cura” do autismo por meio do dióxido de cloro, substância de uso industrial que não possui aprovação para ingestão humana e pode provocar intoxicações graves.
Mais diagnóstico não significa necessariamente mais autismo
Um dos principais desafios científicos é separar dois fenômenos diferentes.
O primeiro é um possível aumento real da ocorrência do TEA. O segundo é o crescimento do número de pessoas reconhecidas e diagnosticadas.
O crescimento dos diagnósticos de autismo também está relacionado ao maior conhecimento sobre o transtorno entre médicos, professores e famílias, facilitando a identificação de características que no passado poderiam ser interpretadas de outras formas.
Além disso, adultos que passaram toda a infância sem diagnóstico também começaram a procurar avaliação, muitas vezes depois que filhos ou outros familiares foram identificados como autistas.
Por outro lado, especialistas alertam que a ampliação da procura também pode aumentar a ocorrência de diagnósticos equivocados, especialmente quando avaliações são realizadas sem acompanhamento adequado.
O diagnóstico de TEA continua essencialmente clínico e envolve observação do comportamento, histórico do desenvolvimento e informações fornecidas pela família e pela escola.
Não existe atualmente um exame de sangue, teste genético ou exame de imagem que, sozinho, determine se uma pessoa é autista.
Autismo pode se manifestar de maneiras muito diferentes
O conceito de espectro também significa que duas pessoas diagnosticadas com TEA podem apresentar necessidades bastante distintas.
Em janeiro, a Gazeta mostrou que um estudo conduzido por pesquisadores de Princeton e do Instituto Flatiron identificou quatro perfis distintos de autismo a partir da combinação de características comportamentais e genéticas. A pesquisa reforça a ideia de que o TEA não segue uma trajetória única e pode envolver diferentes padrões de desenvolvimento e necessidades de suporte.
Algumas pessoas possuem linguagem desenvolvida e maior autonomia. Outras podem precisar de suporte contínuo para atividades cotidianas, comunicação e interação social.
O DSM divide atualmente o TEA em três níveis, relacionados à necessidade de suporte.
Essa diversidade também alimenta discussões dentro da própria comunidade autista.
Movimentos ligados à neurodiversidade defendem que diferenças neurológicas fazem parte da diversidade humana e que a sociedade precisa remover barreiras para permitir maior participação das pessoas autistas.
Ao mesmo tempo, famílias de pessoas com maiores necessidades de suporte alertam que situações mais severas não podem ser ignoradas na formulação de políticas públicas.
Inclusão ainda é um dos principais desafios
O crescimento da identificação do autismo colocou também em evidência dificuldades de acesso à educação, saúde e acompanhamento especializado.
No ambiente escolar, especialistas defendem adaptações de acordo com as necessidades de cada estudante. Na prática, porém, estruturas individualizadas ainda são difíceis de implementar, principalmente em salas numerosas.
O mesmo ocorre com terapias e acompanhamento multidisciplinar.
Abordagens comportamentais, psicoterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia estão entre os recursos utilizados conforme as necessidades individuais, mas o acesso pode variar significativamente entre famílias e regiões.
Apesar de décadas de avanços científicos, muitas perguntas sobre o autismo permanecem abertas.
O que as pesquisas mostram até agora é um quadro complexo. A genética desempenha papel importante, diferentes fatores relacionados ao desenvolvimento continuam sendo investigados e, ao mesmo tempo, mudanças nos critérios médicos e maior acesso à informação fizeram com que pessoas antes invisíveis às estatísticas passassem a receber diagnóstico.
Por isso, o crescimento dos números não permite uma explicação única. Parte dele pode estar relacionada à identificação de casos que antes passavam despercebidos, enquanto a ciência continua investigando se outros fatores também contribuíram para uma mudança real na ocorrência do transtorno.
O desafio da ciência agora é compreender melhor essas relações sem transformar associações estatísticas em explicações simples para uma condição que pode se manifestar de maneiras profundamente diferentes entre indivíduos.
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