Pesquisa do Instituto Trata Brasil e GO Associados aponta proliferação de poços irregulares e defende conexão da indústria à rede pública para assegurar sustentabilidade
Mesmo situada no coração da maior bacia hidrográfica do planeta, a capital amazonense caminha para um cenário desafiador. Um estudo inédito intitulado “O desafio da segurança hídrica na região de Manaus e políticas de sustentabilidade” adverte que a capital do Amazonas pode atingir patamares críticos de abastecimento até 2040. Os principais fatores de pressão são as consequências das mudanças climáticas, os períodos severos de estiagem e a exploração desregulada de mananciais subterrâneos, alertando para a iminência de uma grave crise hídrica em Manaus.
📲Quer receber notícias direto no celular? Entre no nosso grupo no WhatsApp.
O levantamento, realizado pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a GO Associados, foi lançado na manhã desta quinta-feira (03), durante encontro na Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo. O documento destaca a urgência de diversificar a matriz de captação da cidade para atenuar a dependência exclusiva de fontes vulneráveis às secas.
O perigo invisível: milhares de poços operam sem outorga
Um dos dados mais expressivos trazidos pelo diagnóstico refere-se à utilização de águas subterrâneas. De acordo com as estimativas apresentadas, Manaus conta atualmente com mais de 27 mil poços em funcionamento. Contudo, apenas cerca de 5 mil possuem registro e autorização dos órgãos de fiscalização ambiental e de recursos hídricos, evidenciando uma expressiva margem de captação sem monitoramento.
Segundo Luana Pretto, presidente executiva do Instituto Trata Brasil, a estabilidade do abastecimento depende de governança técnica. “Segurança hídrica se constrói com planejamento e mitigação de risco, e o caso de Manaus mostra isso com clareza. A cidade depende fortemente do Rio Negro, mas também recorre a poços que muitas vezes operam sem outorga e sem controle adequado. Investir hoje em reúso, uso racional e controlado dos poços, monitoramento e proteção de mananciais reduz riscos para a população e para as empresas. É assim que o país avança rumo à universalização do saneamento, com responsabilidade e visão integrada”, pontuou a especialista.
Indústria e rede pública buscam soluções para mitigar a crise hídrica em Manaus
A adesão de grandes consumidores ao sistema público de distribuição surge no relatório como uma medida estratégica para diminuir a pressão sobre o lençol freático. Atualmente, parte representativa do polo industrial local recorre à água subterrânea para manter suas linhas operacionais.
O relatório técnico demonstra que a migração do setor industrial para a rede pública dilui custos fixos operacionais. Esse movimento viabiliza financeiramente o modelo de subsídio cruzado, mecanismo tarifário que possibilita a prática de valores mais acessíveis para as categorias residencial, social e populações em situação de vulnerabilidade.
Presente ao debate em São Paulo, o diretor-presidente da concessionária Águas de Manaus, Pedro Freitas, frisou que o município atravessa um período decisivo para evitar o desabastecimento a médio prazo. “Estamos empenhados em mobilizar os mais diversos setores nesse tema porque sabemos que o saneamento é um desafio coletivo. Isso passa por ampliar a conscientização sobre a diversificação da matriz hídrica de Manaus, avançar no combate às perdas e preservar as nossas fontes naturais de água”, declarou.
Para o executivo, a participação das empresas é indispensável para a integridade do sistema. “Os setores públicos e privados, assim como a população, podem contribuir para ampliar o acesso à água com qualidade e segurança ao aderirem ao sistema. Este estudo demonstra, em especial, como a adesão do setor industrial à rede de abastecimento pode gerar uma cadeia de benefícios, incentivando outros segmentos a também se conectarem à rede e promovendo um uso mais sustentável dos recursos hídricos”, concluiu Freitas.
Leia mais:
ONU alerta que o mundo entrou em estado de falência hídrica
Mudanças climáticas ameaçam segurança energética e reduzem vazão de rios na Amazônia
Siga nosso perfil no Instagram, Tiktok e curta nossa página no Facebook


