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Inteligência artificial dificulta o começo da trajetória profissional

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Automação reduz vagas de entrada, aumenta a concorrência e muda a forma como jovens iniciam a carreira em diversos setores da economia

A inteligência artificial está transformando o mercado de trabalho em velocidade inédita. Enquanto empresas incorporam ferramentas capazes de automatizar atividades administrativas, operacionais e até criativas, profissionais que buscam o primeiro emprego enfrentam um cenário cada vez mais competitivo.

Historicamente, cargos de nível inicial funcionavam como a principal porta de entrada para recém-formados. Eram nessas funções que jovens profissionais adquiriam experiência prática, aprendiam processos internos e construíam as competências necessárias para assumir responsabilidades maiores ao longo da carreira.

Esse modelo, porém, começa a perder espaço.

Diversos estudos publicados nos últimos anos apontam que tarefas antes realizadas por estagiários, assistentes e analistas juniores estão sendo absorvidas por sistemas baseados em inteligência artificial generativa, capazes de produzir textos, organizar informações, analisar documentos, gerar códigos, responder clientes e automatizar processos com custos menores e maior velocidade.

O resultado é um mercado que exige profissionais mais preparados logo nas primeiras etapas da carreira.

As portas de entrada estão menores

Levantamentos reunidos na pesquisa mostram que empresas que adotaram inteligência artificial generativa reduziram aproximadamente 80% das contratações para cargos de entrada desde 2023. Em escala global, a oferta de vagas juniores encolheu cerca de 35%.

Embora a tecnologia não esteja eliminando todas as profissões, ela vem reduzindo justamente as funções que tradicionalmente serviam como espaço de aprendizado para novos trabalhadores.

Entre as atividades mais afetadas aparecem funções administrativas, atendimento ao cliente, apoio em marketing, pesquisa, produção de conteúdo, organização documental e análise de dados básicos.

Em muitas organizações, essas tarefas passaram a ser executadas por plataformas inteligentes integradas aos processos internos.

Jovens profissionais sentem primeiro os efeitos

Os impactos dessa transformação aparecem de forma mais intensa entre trabalhadores em início de carreira.

Um estudo conduzido pelo Stanford Digital Economy Lab, baseado em informações de mais de 25 milhões de trabalhadores, identificou queda entre 13% e 16% no emprego de profissionais com idade entre 22 e 25 anos em setores altamente expostos à inteligência artificial desde o final de 2022.

Enquanto isso, trabalhadores acima dos 30 anos registraram crescimento na ocupação dentro dos mesmos segmentos.

Os pesquisadores explicam que profissionais mais experientes carregam conhecimentos práticos, capacidade de tomada de decisão, relacionamento interpessoal e entendimento do funcionamento das organizações, características que continuam difíceis de reproduzir por sistemas automatizados.

Já quem está iniciando a carreira costuma disputar justamente as atividades mais estruturadas e repetitivas, que hoje podem ser realizadas por ferramentas digitais.

Empresas mudam a forma de contratar

A mudança também aparece na estrutura das empresas.

Pesquisadores da Harvard Business School e do INSEAD analisaram aproximadamente 50 mil startups financiadas por capital de risco entre 2020 e 2024 e observaram uma característica comum entre companhias criadas já na era da inteligência artificial.

Essas organizações operam com equipes menores, contratam menos profissionais em início de carreira e concentram investimentos em especialistas capazes de desenvolver, supervisionar e integrar sistemas inteligentes.

Segundo o estudo, startups nativas em inteligência artificial chegam a funcionar com equipes cerca de 25% menores do que empresas tradicionais, mantendo níveis semelhantes de crescimento e valorização financeira.

Na prática, parte do trabalho operacional deixa de ser executada por pessoas e passa a ser realizada por softwares capazes de escalar atividades sem necessidade de ampliar o quadro de funcionários.

Trabalho remoto também acelerou a mudança

Embora a inteligência artificial tenha ganhado protagonismo, pesquisadores alertam que outro fenômeno contribuiu para esse cenário: a consolidação do trabalho remoto.

Estudo desenvolvido por economistas da Universidade de Warwick, da London School of Economics e do Ellison Institute mostra que empresas passaram a enfrentar maiores dificuldades para treinar profissionais sem experiência quando as equipes deixaram de trabalhar presencialmente.

Antes da pandemia, boa parte do aprendizado acontecia de forma espontânea, acompanhando colegas mais experientes durante a rotina de trabalho.

Com equipes distribuídas, a supervisão tornou-se mais complexa e custosa.

Como consequência, muitas empresas passaram a priorizar profissionais capazes de atuar com autonomia desde o início, reduzindo a abertura de vagas para iniciantes.

Mudança exige adaptação

Os estudos mostram que a inteligência artificial não representa apenas uma nova tecnologia incorporada às empresas.

Ela altera a própria lógica de formação de profissionais.

Se antes o mercado absorvia jovens para desenvolver competências ao longo dos primeiros anos de carreira, agora cresce a expectativa de que parte dessas habilidades já esteja presente antes mesmo da contratação.

Na segunda parte desta reportagem, especialistas mostram como essa transformação já afeta o Brasil, quais competências passam a ser mais valorizadas pelas empresas e quais estratégias podem aumentar as chances de conquistar espaço em um mercado cada vez mais competitivo.

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