Alto custo dos medicamentos dificulta acesso de pacientes de baixa renda e especialistas defendem políticas públicas para ampliar o tratamento
Canetas emagrecedoras continuam sendo um recurso distante para grande parte dos brasileiros com obesidade que têm indicação médica para esse tipo de tratamento. Embora os medicamentos representem um avanço importante no combate à doença, o alto custo das principais terapias limita o acesso e evidencia a desigualdade no sistema de saúde, levando muitos pacientes a abandonar o tratamento ou buscar alternativas no mercado ilegal.
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Levantamento da NielsenIQ Brasil, divulgado em abril deste ano, aponta que as canetas emagrecedoras estão presentes em cerca de 5% dos lares brasileiros. Entre os usuários desses medicamentos, 84% relatam impacto alto ou moderado no orçamento mensal, indicando que o tratamento ainda é financeiramente pesado para a maioria da população.
Segundo os dados mais recentes do Vigitel, do Ministério da Saúde, 25,7% dos adultos brasileiros vivem com obesidade. A condição está associada a diversas complicações, como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer e outras enfermidades crônicas.
Canetas emagrecedoras podem levar a perdas de até 22% do peso
Os medicamentos mais antigos para obesidade costumavam proporcionar perda de 5% a 10% do peso corporal. Já os tratamentos baseados em semaglutida, como Wegovy e Ozempic, podem alcançar cerca de 17% de redução do peso, enquanto a tirzepatida (Mounjaro), que atua nos receptores hormonais GLP-1 e GIP, pode chegar a 22%.
Especialistas consideram esses resultados bastante expressivos, mas alertam que a tecnologia ainda não alcança grande parte dos pacientes que mais precisam do tratamento.
O endocrinologista Paulo Miranda, coordenador do Departamento Internacional da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), afirma que a dificuldade de acesso é um problema discutido em diversos países.
“Esse problema gera uma disparidade de atenção à saúde. É preciso haver a inclusão dessas medicações dentro de um custo aceitável para o público que pode se beneficiar desses tratamentos”, afirmou.
Atualmente, nenhuma caneta emagrecedora está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) para tratamento da obesidade. O Ministério da Saúde informou que trabalha para ampliar o acesso a essas terapias.
Queda da patente reduz preço da semaglutida
Nos últimos meses, os medicamentos à base de semaglutida começaram a apresentar redução de preço após a queda da patente do princípio ativo. A mudança permitiu que laboratórios brasileiros passassem a produzir versões nacionais do medicamento.
Em junho, chegou às farmácias a Ozivy, primeira caneta emagrecedora brasileira produzida com semaglutida pelo laboratório EMS. Na sequência, a Anvisa aprovou o registro de outros cinco medicamentos baseados no mesmo princípio ativo.
O Ministério da Saúde informou que solicitou prioridade à Anvisa para o registro de medicamentos contendo semaglutida e liraglutida, utilizados no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Segundo a pasta, a entrada de genéricos no mercado deve aumentar a concorrência e reduzir os preços de forma significativa.
Apesar da queda, os especialistas destacam que o tratamento ainda permanece caro para a maior parte da população.
A endocrinologista Rachel Teixeira ressalta que muitos pacientes simplesmente não conseguem incluir esse gasto no orçamento familiar.
Já a tirzepatida (Mounjaro) continua entre os medicamentos mais caros do mercado, com tratamentos que variam de R$ 1,5 mil a R$ 3 mil por mês, e cuja patente deve permanecer vigente por aproximadamente mais uma década.
Obesidade afeta mais as populações vulneráveis
Para o professor Bruno Gualano, presidente do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP, as canetas emagrecedoras, apesar da eficácia, ainda não resolvem o principal desafio da obesidade no país.
Segundo ele, a doença costuma atingir com maior intensidade justamente as populações de menor renda, que têm menos acesso ao tratamento.
Gualano afirma ainda que estudos indicam que boa parte dos usuários dessas tecnologias não possui indicação terapêutica formal, utilizando os medicamentos por pressão estética ou busca de um chamado “emagrecimento social”.
Rachel Teixeira relata que, na prática clínica, muitos pacientes tentam parcelar o tratamento mesmo sem condições financeiras para mantê-lo.
“Se não cabe no orçamento, é melhor nem começar, porque, de fato, se você suspender, a tendência é o peso retornar para o inicial”, explicou.
A médica lembra que o tratamento da obesidade costuma ser contínuo, de forma semelhante ao tratamento de doenças crônicas como diabetes e hipertensão, o que torna o impacto financeiro ainda maior ao longo do tempo.
Quando as canetas não são acessíveis, os médicos costumam recorrer a outras medicações para controle do peso, geralmente com custo inferior.
Tratamento vai além dos medicamentos
Especialistas destacam que as canetas emagrecedoras representam apenas uma parte do tratamento da obesidade. O acompanhamento nutricional, a prática regular de atividade física e mudanças de comportamento são considerados fundamentais para resultados duradouros.
Gualano afirma que também existe forte desigualdade no acesso a ambientes favoráveis à saúde.
“Você precisa estar bem localizado, ter parques, equipamentos públicos e condições para praticar atividade física e manter uma alimentação saudável”, afirmou.
Segundo ele, a obesidade está profundamente relacionada ao contexto social, econômico e ambiental em que as pessoas vivem, e não apenas a fatores individuais.
O pesquisador também avalia que a popularização das canetas emagrecedoras pode criar um novo tipo de estigma social.
“O indivíduo com um corpo gordo pode ser estigmatizado também como um indivíduo pobre, um indivíduo que não tem condições financeiras para comprar o corpo magro”, observou.
Mercado ilegal preocupa especialistas
O alto custo dos medicamentos também tem impulsionado a procura por canetas emagrecedoras contrabandeadas, especialmente produtos provenientes do Paraguai. A prática é considerada de alto risco pela Anvisa.
Bruno Gualano alerta que não há garantia sobre a qualidade, pureza, transporte ou armazenamento desses medicamentos vendidos de forma irregular.
Para Paulo Miranda, a expansão do mercado ilegal reforça a necessidade de políticas públicas mais amplas para o tratamento da obesidade no Brasil.
“Essa questão precisa ser debatida da forma mais rápida possível para que as pessoas não precisem recorrer ao interesse de organizações criminosas que atuam no contrabando desses remédios”, afirmou.
Segundo o endocrinologista, o acesso ao tratamento não pode depender da escolha entre produtos irregulares e caros medicamentos vendidos regularmente, sob risco de aprofundar ainda mais a desigualdade no cuidado da saúde da população.
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