A luta contra o câncer entrou em uma nova fase. Em vez de depender de uma única descoberta capaz de transformar o tratamento da doença, diferentes linhas de pesquisa passaram a apresentar resultados promissores ao mesmo tempo. Esse cenário marcou a 61ª reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), realizada em maio deste ano, em Chicago, nos Estados Unidos, onde estudos envolvendo inteligência artificial, vacinas personalizadas, novos medicamentos e até intervenções de baixo custo chamaram a atenção da comunidade médica.
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Um dos momentos mais marcantes do encontro ocorreu durante a apresentação do estudo RASolute 302, conduzido pelo Dana-Farber Cancer Institute. Diante dos resultados, milhares de médicos presentes se levantaram para aplaudir uma pesquisa voltada ao tratamento do câncer de pâncreas, um dos tumores mais agressivos e de pior prognóstico.
Os dados mostraram que o medicamento experimental daraxonrasibe praticamente dobrou a sobrevida dos pacientes quando comparado ao tratamento convencional com quimioterapia. A doença apresenta taxa de sobrevida em cinco anos de aproximadamente 3%, tornando qualquer avanço especialmente relevante.
O novo tratamento atua sobre o gene RAS, identificado como um dos principais motores biológicos de cerca de um terço dos tumores humanos. Durante décadas, esse alvo foi considerado praticamente impossível de bloquear com sucesso. Por isso, o resultado foi apontado por pesquisadores presentes no congresso como um dos mais importantes já registrados para pacientes com câncer de pâncreas.
Vacinas personalizadas ampliam novas possibilidades no combate ao câncer
Outro destaque da conferência foi o avanço das vacinas personalizadas baseadas em tecnologia de RNA mensageiro (mRNA), a mesma utilizada durante a pandemia de Covid-19.
A estratégia consiste em analisar o material genético retirado do tumor após a cirurgia e identificar mutações específicas daquele câncer. A partir dessas informações, é produzida uma vacina exclusiva para cada paciente, capaz de estimular o sistema imunológico a reconhecer e atacar células tumorais remanescentes.
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Entre os estudos apresentados, chamou atenção o acompanhamento de cinco anos envolvendo pacientes com melanoma de alto risco. Aqueles que receberam a vacina personalizada Intismeran em conjunto com imunoterapia apresentaram quase metade do risco de recorrência da doença ou morte em comparação com os pacientes tratados apenas com imunoterapia.
Ao final do período de acompanhamento, aproximadamente 69% dos participantes permaneciam livres do câncer.
Embora o estudo ainda dependa de confirmação em pesquisas maiores, a mesma tecnologia já está sendo investigada em tumores de pulmão, pâncreas e bexiga, ampliando as perspectivas da chamada medicina personalizada.
Exercício físico e medicamentos conhecidos também surpreendem
Nem todas as novidades apresentadas durante a ASCO envolveram tecnologias complexas.
O estudo internacional CHALLENGE acompanhou pacientes operados de câncer de intestino e verificou que um programa estruturado de exercícios físicos após o tratamento reduziu significativamente o risco de retorno da doença.
A taxa de sobrevida livre do câncer em cinco anos alcançou 80,3% entre os participantes que realizaram atividade física orientada, contra 73,9% entre aqueles que receberam apenas orientações educativas sobre saúde.
Além dos benefícios clínicos, pesquisadores destacaram que esse tipo de intervenção apresenta boa relação entre custo e benefício, fator considerado importante para sistemas públicos e privados de saúde.
Outro caminho que vem ganhando espaço é o reposicionamento de medicamentos já existentes.
Uma dose baixa de aspirina demonstrou reduzir pela metade o risco de recidiva em um grupo específico de pacientes com câncer de intestino identificado por exames genéticos. Já o abemaciclibe, desenvolvido originalmente para câncer de mama, tornou-se o primeiro tratamento eficaz contra um tipo raro e agressivo de sarcoma após estudos demonstrarem que ambas as doenças compartilham o mesmo mecanismo biológico.
Essa estratégia pode representar uma alternativa especialmente importante para países como o Brasil, já que muitos desses medicamentos já estão disponíveis no mercado, inclusive em versões genéricas.
Inteligência artificial acelera novas descobertas
Entre todas as tendências apresentadas na conferência, a inteligência artificial apareceu como uma das principais ferramentas para impulsionar o desenvolvimento da oncologia.
Embora os avanços continuem baseados em décadas de pesquisas biológicas, a IA vem permitindo identificar padrões que seriam extremamente difíceis de encontrar por métodos tradicionais. A tecnologia auxilia, por exemplo, na identificação das mutações mais relevantes para cada paciente, na previsão de resposta a determinados medicamentos e na seleção dos melhores candidatos para terapias personalizadas.
O crescimento desse campo foi tão expressivo que a própria organização da ASCO criou trilhas específicas dedicadas ao uso da inteligência artificial, incluindo iniciativas voltadas para levar essas ferramentas a regiões com menos recursos.
Especialistas ressaltam que muitos desses estudos ainda estão em fase inicial, mas consideram que a tecnologia deverá acelerar o desenvolvimento de tratamentos cada vez mais precisos.
Mais do que celebrar uma descoberta isolada, a conferência deste ano evidenciou que o combate ao câncer avança simultaneamente em várias frentes. Novos medicamentos, vacinas sob medida, reaproveitamento de terapias já existentes, atividade física e inteligência artificial passam a integrar uma mesma estratégia que busca tornar os tratamentos mais eficazes, personalizados e acessíveis para um número cada vez maior de pacientes.
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