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Madeira irregular da Amazônia chega à Europa, denuncia ONG britânica

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Investigação internacional aponta falhas no controle e revela que o destino final do material extraído sob suspeita no Pará foram obras públicas na Holanda

Uma investigação detalhada realizada pela organização não governamental britânica Earthsight revelou que carregamentos de madeira irregular da Amazônia ingressaram no mercado europeu através de redes de distribuição que comercializam produtos com selos de sustentabilidade. O relatório, divulgado nesta segunda-feira, aponta fragilidades severas nos mecanismos globais de fiscalização e nos processos de certificação florestal vigentes.

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O documento, intitulado “Cuidado onde você pisa! O deck holandês construído com madeira suspeita da Amazônia”, rastreou o fluxo comercial do insumo extraído pela empresa paraense Samise Indústria, Comércio e Exportação Ltda. A companhia, que operava na Floresta Nacional de Saracá-Taquera, no Pará, possui um histórico complexo de contestações jurídicas e sanções por parte das autoridades ambientais brasileiras.

O trajeto da madeira irregular da Amazônia até o mercado europeu

O monitoramento do trajeto dos produtos florestais contou com o suporte técnico do Center for Climate Crime Analysis (CCCA). A equipe multidisciplinar utilizou o cruzamento de dados de registros de exportação, documentos oficiais de transporte, decisões do Poder Judiciário e imagens de satélite de alta resolução para rastrear a origem e o destino das cargas.

Conforme os achados da Earthsight, a madeira da espécie angelim-vermelho foi adquirida por grandes importadoras europeias de madeira tropical, especificamente as companhias holandesas Hoogendoorn Hout e Van den Berg Houtgroep. Devido à sua alta densidade e resistência a intempéries, essa variedade vegetal é amplamente demandada na Europa para a execução de projetos de infraestrutura urbana e obras de paisagismo, como passarelas e deques externos.

Segundo Rafael Pieroni, líder da Earthsight para a América Latina, a madeira teria percorrido todas as etapas da cadeia comercial apesar de sanções e questionamentos no Brasil.

“A madeira investigada percorreu toda a cadeia de fornecimento e muito provavelmente chegou ao mercado europeu mesmo após suspensões operacionais, multas e investigações. Isso evidencia falhas tanto nos mecanismos de certificação quanto na fiscalização das cadeias globais de comércio de madeira.”Afirmou

Histórico de infrações e sanções operacionais

O relatório compila uma série de episódios que pesam contra a Samise. Entre as principais irregularidades apontadas constam a suspeita de adulteração na identificação de mais de 600 toras, uma carga avaliada em aproximadamente R$ 550 mil, além do transporte ilegal de material lenhoso durante períodos em que a empresa se encontrava sob suspensão operacional expressa das autoridades.

Adicionalmente, os registros indicam que a empresa acumulou cerca de R$ 7 milhões em multas por violações de normas ambientais no Brasil. Paralelamente, constava um débito superior a R$ 2,2 milhões junto ao governo federal em decorrência do não pagamento de taxas de concessão exigidas por lei, situação que culminou em um embargo de suas atividades operacionais em março de 2025. Parte da produção teria sido destinada à serraria Greenex para processamento posterior e subsequente inserção nos mercados doméstico e externo.

Fragilidades no sistema do selo FSC e resposta institucional

Um dos pontos centrais da denúncia reside na atuação do Forest Stewardship Council (FSC). A Samise detinha o selo de certificação da entidade desde o ano de 2016. Mesmo enfrentando sucessivas penalidades, embargos e suspensões administrativas entre 2023 e 2025, o certificado internacional da empresa permaneceu ativo por quase todo o período crítico, vindo a ser definitivamente cancelado apenas em março de 2026.

Como desdobramento do cenário de irregularidades, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima publicou no Diário Oficial da União a decisão do diretor-geral do Serviço Florestal Brasileiro (SFB) de extinguir o contrato de concessão com a Samise. O órgão considerou que a empresa descumpriu cláusulas essenciais do acordo estabelecido. A empresa dispõe do prazo legal de dez dias para recorrer administrativamente da decisão.

Exigências de due diligence e o novo regulamento europeu

A Earthsight ressalta que o episódio expõe as limitações operacionais do Regulamento da União Europeia sobre Madeira (EUTR), diretriz em vigência desde 2013 que obriga os importadores a realizarem análises minuciosas de risco e proíbe a entrada de insumos de origem ilícita. A crítica recai sobre a postura de empresas que adotam as certificações privadas como o único critério de validação, omitindo auditorias independentes sobre a cadeia.

Diante disso, a organização defende a aplicação rigorosa da nova legislação europeia antidesmatamento, prevista para entrar em vigor em dezembro de 2026. O novo marco legal exigirá padrões de conformidade técnica e rastreabilidade muito superiores aos atuais. Segundo os especialistas, a garantia de procedência demandará uma postura ativa do mercado que transcenda a simples verificação de portfólios certificados.

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