Contaminação de rios na Terra Indígena Waimiri Atroari voltou ao centro das discussões entre autoridades, representantes indígenas e a Mineração Taboca. Em reunião realizada em Manaus, o Ministério Público Federal (MPF) reuniu as partes para acompanhar o andamento do inquérito civil que investiga possíveis danos ambientais provocados pelas atividades da mina de Pitinga, localizada em Presidente Figueiredo, no Amazonas.
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O encontro contou com a participação de lideranças e representantes jurídicos da Associação Comunidade Waimiri Atroari (ACWA), servidores da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e representantes da empresa responsável pela exploração mineral. O principal objetivo foi definir os próximos passos da investigação e alinhar medidas relacionadas às futuras vistorias técnicas na região.
Investigação apura presença de metais pesados
Durante a reunião, o procurador da República André Luiz Porreca apresentou um panorama do inquérito e ressaltou que estudos técnicos já identificaram a presença de metais pesados, como chumbo e alumínio, em cursos d’água localizados na Terra Indígena Waimiri Atroari.
Entre os rios e igarapés investigados estão o Igarapé Jacutinga e os rios Tiaraju e Alalaú. Segundo o MPF, informações da Agência Nacional de Mineração (ANM) indicam que o extravasamento de barragens pode estar relacionado à contaminação registrada na região.
Ao abordar o caso, o procurador destacou que a atividade minerária é legalmente autorizada, mas deve respeitar rigorosamente os limites ambientais previstos na Constituição Federal para assegurar a proteção do meio ambiente e das populações afetadas.
Indígenas relatam impactos na alimentação e na saúde
Representantes da ACWA e servidores da Funai relataram uma série de mudanças observadas pelas comunidades ao longo dos últimos anos. Segundo os indígenas, foram registrados episódios de morte de peixes, botos, tartarugas e árvores, além do aparecimento de espuma, odores intensos e alterações no sabor do pescado consumido pelas aldeias.
Os relatos apontam que os problemas se tornam mais frequentes durante os períodos de chuvas intensas, quando estruturas de contenção e tanques de derivação da mineradora atingiriam sua capacidade máxima, ocasionando o extravasamento de sedimentos. Conforme informado durante a reunião, um dos casos citados foi a morte biológica do igarapé Orquídea.
A Terra Indígena Waimiri Atroari abriga cerca de 2.800 indígenas distribuídos em 92 aldeias. A população depende diretamente dos rios para alimentação, abastecimento e práticas ligadas à medicina tradicional.
As lideranças também manifestaram preocupação com possíveis impactos à saúde, principalmente entre crianças que utilizam a água dos rios para banho ou consumo sem conhecer os riscos. Entre os sintomas mencionados estão episódios de vômito, além de casos de anemia e ansiedade registrados na comunidade.
Mineradora contesta metodologia dos estudos
Durante a reunião, a Mineração Taboca afirmou que pretende manter o diálogo com o MPF e com a comunidade indígena, além de continuar realizando estudos ambientais na região.
A empresa informou possuir ressalvas em relação à metodologia utilizada em alguns dos laudos apresentados durante a investigação. Segundo a defesa técnica da mineradora, os episódios de aumento da turbidez da água podem estar relacionados a índices pluviométricos considerados excepcionais.
A companhia também afirmou que suas barragens operam dentro da capacidade prevista e informou que mantém estudos em andamento envolvendo solo, vegetação e peixes para ampliar o diagnóstico ambiental da área.
Como forma de reduzir divergências técnicas, representantes da empresa sugeriram a criação de um grupo de trabalho conjunto com a ACWA para padronizar os procedimentos de coleta e análise de amostras em futuras avaliações ambientais.
Durante o encontro, as lideranças indígenas solicitaram ainda esclarecimentos sobre os produtos químicos utilizados no processo de lavagem dos minérios.
Vistoria da ANM terá participação dos indígenas
Entre os encaminhamentos definidos na reunião, ficou estabelecido que representantes do povo Waimiri Atroari participarão da próxima vistoria técnica da Agência Nacional de Mineração, prevista para julho de 2026.
A intenção é que as lideranças indiquem diretamente aos fiscais os pontos onde a comunidade identifica sinais de poluição, como espuma e odores nos cursos d’água. A Mineração Taboca comprometeu-se a disponibilizar a infraestrutura logística necessária para o deslocamento durante a inspeção.
O MPF informou ainda que também requisitou uma inspeção ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), cuja participação poderá ser acompanhada pelos indígenas, caso o órgão ambiental autorize.
Após a conclusão das vistorias e da consolidação dos novos estudos técnicos, uma nova reunião será realizada entre o MPF, a comunidade Waimiri Atroari e a mineradora para discutir medidas destinadas à mitigação e à reparação dos impactos ambientais eventualmente constatados.
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