Uma versão oral da semaglutida demonstrou resultados promissores na redução do consumo excessivo de bebidas alcoólicas em adultos diagnosticados com o transtorno, revelam pesquisadores norte-americanos.
A semaglutida, substância já amplamente conhecida por integrar a fórmula de medicamentos voltados ao tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, como o Ozempic e o Wegovy, surge agora como uma alternativa promissora no combate ao transtorno por uso de álcool (TUA). Um estudo recente conduzido por pesquisadores nos Estados Unidos testou uma versão oral da molécula e indicou que o remédio pode ajudar a conter o consumo excessivo e prejudicial de bebidas.
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A pesquisa foi publicada na revista científica The American Journal of Psychiatry e reforça uma tendência observada na medicina moderna: a investigação dos chamados agonistas de GLP-1 para o enfrentamento de diferentes tipos de dependência química.
Frequentemente, pacientes em uso de canetas antiobesidade relatam uma diminuição involuntária na vontade de beber ou fumar. A explicação científica para o fenômeno reside na atuação dessa classe medicamentosa sobre o sistema de recompensa do cérebro. Ao agir em estruturas centrais como o núcleo accumbens, o fármaco atenua a liberação de dopamina desencadeada pelo álcool, pela nicotina e por outras substâncias, atenuando a sensação imediata de prazer que o consumo costuma proporcionar.
Testes com semaglutida oral e metodologia da pesquisa
Os ensaios clínicos foram conduzidos no Campus Médico Anschutz da Universidade do Colorado ao longo de dois anos, entre novembro de 2023 e outubro de 2025. O levantamento acompanhou 50 voluntários adultos com diagnóstico de transtorno por uso de álcool em graus moderado a grave, condição crônica marcada pela perda de controle sobre a ingestão da substância e pela presença de sintomas de abstinência.
Desenvolvido sob o formato duplo-cego, randomizado e controlado por placebo (metodologia considerada o padrão-ouro na pesquisa científica), o experimento teve duração total de oito semanas. Os participantes tinham mais de 21 anos e reportavam histórico semanal de consumo elevado: uma média igual ou superior a 28 doses entre homens e 21 entre mulheres. Todos apresentavam histórico recente de pelo menos um episódio de consumo excessivo na semana anterior ao início do teste (definido como a ingestão de cinco ou mais doses em um único dia para homens, e quatro ou mais para mulheres).
Divididos aleatoriamente em duas equipes, parte dos voluntários recebeu o tratamento ativo com comprimidos de 3 mg por dia nas primeiras quatro semanas, dosagem posteriormente elevada para 7 mg diários pelo mesmo período. O grupo de controle recebeu placebo. De acordo com os responsáveis pelo trabalho, essas quantidades são inferiores às prescritas habitualmente para diabetes ou obesidade. A opção pela administração oral também se mostrou mais aceitável entre os pacientes do que as versões injetáveis aplicadas em testes anteriores para a mesma condição.
Resultados obtidos e impacto no uso de outras substâncias
Ao final das oito semanas, a avaliação laboratorial do impulso imediato pelo álcool não registrou alterações significativas. Em contrapartida, a rotina diária dos voluntários tratados revelou avanços expressivos: houve uma queda acentuada no número de dias em que os participantes incorreram no consumo compulsivo.
O acompanhamento registrou ainda uma redução no volume diário de bebidas ingeridas, menor avidez em situações cotidianas do mundo real e uma diminuição inesperada nos dias de uso de cannabis. Essa última substância foi monitorada devido à elevada prevalência de uso no estado do Colorado. Embora testes prévios de laboratório já sugerissem que agonistas do receptor de GLP-1 poderiam reduzir episódios e recaídas do transtorno por uso de cannabis (condição crônica marcada pela incapacidade de cessar o consumo), nenhum estudo em seres humanos havia medido tais desfechos diretamente. Os autores destacam que essa diminuição no uso da erva, embora exploratória, é inédita e exige confirmação em levantamentos mais amplos.
Comparados aos integrantes que receberam placebo, os indivíduos submetidos à medicação apresentaram diminuição substancial dos níveis de risco no padrão de consumo, migrando, por exemplo, de patamares elevados para categorias moderadas. O grupo também reportou queda nos transtornos decorrentes da ingestão de álcool. O tratamento demonstrou boa tolerabilidade geral, registrando efeitos colaterais gastrointestinais semelhantes aos observados em outros perfis de pacientes e índices baixos de desistência ao longo do processo.
Perspectivas clínicas e próximos passos
Os pesquisadores avaliam que os dados obtidos fornecem evidências promissoras sobre a eficácia do fármaco, projetando a substância como uma nova ferramenta terapêutica. A opção ganha relevância especial para indivíduos que não obtiveram resposta satisfatória com as medicações tradicionais já aprovadas para o tratamento da dependência alcoólica.
Permanece em aberto, contudo, a dúvida se o benefício alcançado na contenção do hábito se mantém no longo prazo após a interrupção da medicação. Para solucionar essa lacuna, os autores sugerem que os próximos ensaios clínicos façam o acompanhamento prolongado dos indivíduos após a suspensão das doses.
Caso estudos adicionais com amostras maiores de voluntários confirmem a eficácia e a segurança do método, os autores ressaltam no artigo que a classe dos agonistas de GLP-1 possui potencial para uma adoção ampla na prática médica, recomendando que as pesquisas voltadas ao reaproveitamento da molécula sigam em ritmo acelerado.
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