A expectativa em torno do petróleo na Foz do Amazonas já está transformando Oiapoque, no extremo norte do Amapá. Mesmo antes de a Petrobras confirmar se a descoberta em águas profundas será economicamente viável, novos moradores chegam, bairros avançam sobre áreas de mata, aluguéis sobem e o comércio começa a sentir a presença de trabalhadores ligados à operação.
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Com cerca de 30 mil habitantes, Oiapoque é o município brasileiro mais próximo da área onde a Petrobras encontrou petróleo, a 175 quilômetros da costa. A cidade fica a quase 600 quilômetros de Macapá, percurso que ainda inclui cerca de 100 quilômetros sem asfalto. A descoberta ocorreu na chamada bacia da Foz do Amazonas, na Margem Equatorial.
A possibilidade de um novo ciclo econômico alimenta expectativas semelhantes às observadas em países vizinhos. Há cerca de dois anos, a paraense Sheila Cals, de 69 anos, passou a ouvir em Caiena, onde viveu por 35 anos, que era hora de retornar ao Brasil.
“Sempre foi meu sonho voltar ao Brasil. E agora ficamos na expectativa de acontecer aqui o que aconteceu na Guiana, no Suriname”, diz Sheila, que voltou a Oiapoque.
Petróleo no Oiapoque já mexe com moradia e população
A mudança aparece de forma mais evidente nos bairros que surgiram ou cresceram nos últimos anos. No Belo Monte, área próxima ao aeródromo, mais de cem casas foram construídas somente no último ano, segundo Zione de Paiva, conhecida como Loira do Belo Monte e presidente da associação de moradores. O bairro já teria chegado a 450 casas.
“São pessoas que estão vindo para Oiapoque atrás de um emprego, atrás de uma oportunidade”, afirma Loira.
Areia Branca, Nova Conquista, Matinha e Independência também registram novas construções. Em 2025, a prefeitura emitiu cerca de 800 alvarás de construções e transferências. A Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação reconhece um “índice de crescimento considerável nos últimos anos”, embora não tenha contabilizado a população recém-chegada.
A pressão também alcançou a rede municipal de ensino. Para 2026, foram registrados 807 novos estudantes interessados em vagas, aumento de 16% sobre uma rede que atendia cerca de 5 mil alunos. A Secretaria de Educação informou que está abrindo anexos e utilizando estruturas para atender à “chegada massiva de moradores em busca de emprego, impulsionada pela expectativa de extração de petróleo na margem equatorial”.
Expansão urbana ocorre sem infraestrutura
A nova ocupação se estende por mais de três quilômetros, entre as proximidades da BR-156 e a região da comunidade Vila Vitória. O processo começou ainda nos anos 2000, perto do aeroporto, em uma área hoje conhecida como Infraero.
Em 2017, a Aeronáutica doou 213 hectares à prefeitura para a regularização fundiária. A ocupação, porém, continuou avançando. Belo Monte e Nova Conquista cresceram a partir de 2020, enquanto Areia Branca, Matinha e Independência surgiram nos últimos três anos.
“A prefeitura não se mobilizou para fazer um projeto, uma cidade planejada. Então, ela permitiu que as pessoas fossem invadindo de qualquer jeito”, lembra a corretora Ivete Sarmento, que vive há 23 anos na cidade.
A situação levou a prefeitura a ingressar, em 2025, com uma ação de reintegração de posse. O Tribunal de Justiça do Amapá determinou mediação por considerar que existem “traços típicos de um conflito fundiário coletivo de grande escala, envolvendo extensa área urbana ocupada há mais de uma década”.
Nos bairros mais recentes, predominam casas simples de madeira, ruas de terra e locais sem acesso à água. Segundo relatos, parte dos lotes também foi ocupada por pessoas interessadas em revendê-los caso a exploração de petróleo avance.
“Os órgãos fizeram vista grossa e foram deixando”, diz a bióloga Joessy de Cássia, presidente da associação de moradores do Independência. Para ela, a expansão acelerou com a prospecção. “Bastou as pessoas fazerem a primeira derrubada de árvores para o povo se proliferar”, afirma.
Petrobras movimenta comércio e mercado de imóveis
A presença da Petrobras já produz efeitos econômicos locais. A empresa reformou o aeroporto de Oiapoque para receber voos fretados da Azul, que levam funcionários de Macapá. De lá, eles seguem de helicóptero para as plataformas em alto mar.
A maior procura também pressionou os preços. Uma moradora relatou que o aluguel passou de R$ 1,2 mil para R$ 1,9 mil de um mês para o outro. Uma empresária afirmou que o preço cobrado pelo estacionamento que aluga dobrou em um ano. Hotéis também registram alta procura.
Para Ivete Sarmento, há uma combinação de demanda e especulação imobiliária.
“Você olha o valor e pensa: de onde a pessoa tirou isso, sabe?”, ela diz. “Tem pessoas que estão usando do oportunismo desses boatos de que vai ganhar muito dinheiro muito rapidamente. Enfim, uma ilusão”, afirma.
A corretora alerta que o aumento dos imóveis pode alcançar outros preços. “A partir do momento que você aluga um imóvel caro, o empresário que alugou vai ter que colocar esse valor dentro do produto dele para poder vender”, explica.
Royalties alimentam expectativa por um novo ciclo
A esperança de arrecadação está ligada à eventual exploração comercial. Caso o petróleo seja produzido, cidades litorâneas do Pará e do Amapá, especialmente Oiapoque, poderão receber royalties. Maricá, no Rio de Janeiro, foi a cidade que mais recebeu esse tipo de recurso no país em 2025, com R$ 2,6 bilhões.
A CNI estima que a exploração da Margem Equatorial possa elevar o PIB do Amapá em até 61,2% e gerar cerca de 54 mil empregos diretos e indiretos. O Amapá é atualmente o terceiro menor PIB estadual do Brasil, à frente apenas de Acre e Roraima.
A Petrobras ainda realiza estudos para determinar o potencial da área. Depois da descoberta, estão previstas três novas perfurações no mesmo local e outras cinco em áreas adjacentes. Em 6 de janeiro, a perfuração havia sido interrompida após a identificação de vazamento de um fluido usado para limpar e lubrificar a broca.
Enquanto isso, Oiapoque prepara seu primeiro plano diretor. A intenção é que o instrumento ajude a orientar a organização urbana e a definição do preço do metro quadrado.
A cidade, que hoje depende principalmente do comércio fronteiriço com franceses, da pesca e da agricultura, já passou por outras expectativas de desenvolvimento. A Ponte Binacional com Saint-Georges foi inaugurada em 2017, mas a cobrança de mais de 60 euros, cerca de R$ 376, em visto e taxas de seguro por carro impediu que o tráfego avançasse como esperado. A travessia por pequenos barcos continua sendo a mais utilizada.
O professor da Unifap Edenilson Moura acompanha a transformação urbana e registra as novas construções. Segundo ele, já há edifícios de quatro e cinco pavimentos, sinal de uma mudança na organização do espaço da cidade.
“Mas às vezes o desenvolvimento social não chega da forma que as pessoas imaginam”, avalia Moura.
Para os moradores, a dúvida agora está no mar. O petróleo será economicamente viável? Quando os possíveis royalties chegarão? E quais serão os riscos ambientais?
Sheila, que decidiu retornar ao Brasil apostando na nova fase do município, resume a contradição vivida por Oiapoque: “Mas olha, vou te dizer, Oiapoque está crescendo em população, mas não em desenvolvimento”.
Loira também reconhece o temor entre moradores que dependem do rio e da pesca. “A gente tem receio, sim, porque se houver vazamento de petróleo, vai afetar muitas famílias que vivem da pesca e dependem desse rio”, afirma. Mas, segundo ela, a perspectiva de trabalho pesa mais para parte da população. “Mas, para muita gente que depende de emprego, a expectativa é maior do que o receio”, conclui.
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