Projeto prevê modernização dos sistemas do Inpe, mapeamento de queimadas com maior precisão e ferramentas para antecipar riscos de desmatamento e incêndios florestais
O Fundo Amazônia vai destinar R$ 147,6 milhões ao desenvolvimento de novas tecnologias de monitoramento ambiental no Brasil. O investimento será aplicado no Sistema Integrado para Monitoramento da Vegetação Natural dos Biomas Brasileiros (SIM-Biomas), que utilizará inteligência artificial e aprendizado de máquina para identificar desmatamento, degradação da vegetação e áreas vulneráveis a incêndios florestais.
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A iniciativa foi aprovada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), responsável pela gestão do Fundo Amazônia, em coordenação com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). A execução será realizada pela Fundação de Ciência, Aplicações e Tecnologia Espaciais (Funcate), com responsabilidade técnica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O prazo previsto para a conclusão do projeto é de 60 meses, com recursos não reembolsáveis.
O anúncio foi feito na sexta-feira (16), durante a apresentação dos novos dados de desmatamento monitorados pelo Inpe.
Desmatamento cai na Amazônia e no Cerrado
Os dados divulgados pelo Inpe apontam redução do desmatamento nos dois biomas. Na Amazônia, a área desmatada caiu 41,8%, passando de 5.731 km² para 3.335 km² entre agosto de 2025 e julho de 2026. Segundo os números apresentados, esse foi o menor índice da série histórica iniciada em 1988.
No Cerrado, a redução foi de 23,8%. A área desmatada passou de 7.235,27 km² para 5.516,69 km², também alcançando o menor resultado da série histórica do bioma, iniciada em 2001.
O ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, atribuiu os resultados à continuidade das políticas públicas ambientais, destacando a importância da ciência, da participação social e da cooperação entre os governos federal, estaduais e municipais.
O ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, também ressaltou a integração entre instituições e o uso de tecnologias no enfrentamento aos crimes ambientais. Segundo ele, a cooperação entre a Polícia Federal e as forças de segurança estaduais, federais e municipais, associada à fiscalização, contribui para ampliar a capacidade de resposta do Estado.
Inteligência artificial vai aprimorar sistemas de monitoramento
O SIM-Biomas pretende modernizar os sistemas utilizados pelo Inpe para acompanhar as mudanças na vegetação nativa. A proposta é combinar inteligência artificial, aprendizado de máquina e automação para produzir informações com maior rapidez e precisão.
Uma das principais entregas será a integração do Programa de Cálculo do Desmatamento da Amazônia (Prodes) com o Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter).
O Prodes é utilizado para calcular as taxas de perda da vegetação nativa, enquanto o Deter emite alertas em tempo quase real para orientar ações de fiscalização e controle do desmatamento e da degradação ambiental.
Com a integração, o projeto pretende reunir a precisão espacial do Prodes com a rapidez do Deter, automatizando parte da análise das imagens de satélite e a identificação de alertas. A proposta também prevê aumentar a frequência de divulgação dos dados do Prodes, com informações produzidas ao longo do ano, e não apenas em períodos específicos.
De acordo com o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, o investimento permitirá aperfeiçoar uma estrutura considerada estratégica para a prevenção e o controle do desmatamento, da degradação ambiental e dos incêndios florestais.
O diretor do Inpe, Antônio Miguel Vieira Monteiro, afirmou que o projeto representa avanços técnicos, científicos e metodológicos nos sistemas e plataformas do instituto. A iniciativa também prevê o desenvolvimento de tecnologias e metodologias abertas, replicáveis e verificáveis.
Monitoramento será ampliado para outros biomas
O projeto prevê a expansão do Deter para a Caatinga, a Mata Atlântica e o Pampa. Atualmente, o Inpe realiza monitoramento diário de atividades de supressão da vegetação e degradação ambiental nos biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.
A ampliação deverá aumentar a capacidade de identificação de alterações na cobertura vegetal e fornecer informações para orientar os órgãos responsáveis pela fiscalização e pelo controle ambiental.
O objetivo é reduzir o intervalo entre a ocorrência de uma mudança na vegetação, sua identificação por satélite e a produção de dados que permitam uma resposta mais rápida das autoridades.
Mapeamento de queimadas terá resolução de 30 metros
Outra frente do SIM-Biomas será o aprimoramento do mapeamento das áreas atingidas pelo fogo. Atualmente, com exceção do Cerrado, o monitoramento nacional de áreas queimadas realizado pelo Inpe utiliza resolução espacial de um quilômetro.
A nova metodologia deverá permitir a identificação das cicatrizes de queimadas com resolução de 30 metros em todos os biomas brasileiros, utilizando inteligência artificial.
Com esse nível de detalhamento, será possível identificar com maior precisão os locais atingidos pelo fogo e calcular a extensão das áreas afetadas. Os dados poderão contribuir para o planejamento de ações de prevenção e combate aos incêndios florestais.
O projeto também prevê a elaboração sistemática de mapas de áreas queimadas e a construção de séries históricas com a nova metodologia.
Para Tereza Campello, diretora Socioambiental do BNDES, o investimento fortalecerá a capacidade do país de produzir informações ambientais qualificadas em menos tempo, apoiando as ações de prevenção, fiscalização e controle.
Sistema vai antecipar áreas com risco de desmatamento
O SIM-Biomas também prevê a criação de um Subsistema de Inteligência Territorial, ferramenta destinada a identificar regiões com maior probabilidade de desmatamento e degradação ambiental no curto prazo.
O sistema combinará informações sobre desmatamento, degradação e recuperação da vegetação com dados fundiários, socioeconômicos e climáticos. Técnicas de aprendizado de máquina (machine learning) e aprendizado profundo (deep learning) serão utilizadas para produzir indicadores de risco.
A proposta é ampliar o monitoramento para além do registro de danos já ocorridos, permitindo identificar áreas mais vulneráveis e apoiar o planejamento antecipado de ações de fiscalização, controle e adaptação climática.
As análises poderão considerar diferentes recortes territoriais, como bacias hidrográficas e terras indígenas. Também serão desenvolvidas ferramentas para simular cenários de longo prazo, considerando possíveis mudanças no desmatamento, na degradação e na recuperação da vegetação diante de diferentes condições econômicas, climáticas e de políticas públicas.
Projeto prevê medição de gases de efeito estufa na Amazônia
Outra etapa será o aperfeiçoamento das estimativas de emissões de gases de efeito estufa na Amazônia. Para isso, estão previstos sobrevoos na região, com coleta de amostras atmosféricas para medir as concentrações de dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄), óxido nitroso (N₂O) e monóxido de carbono (CO).
Os dados coletados diretamente na atmosfera serão comparados às estimativas calculadas a partir das mudanças observadas na vegetação, incluindo desmatamento, degradação e regeneração.
A comparação deverá reduzir incertezas e aprimorar as metodologias utilizadas para calcular o balanço de emissões de gases de efeito estufa na Amazônia.
O projeto também prevê estimativas anuais e intra-anuais de emissões, cenários de longo prazo sobre emissões e remoções de gases e mapas atualizados de biomassa e carbono para a Amazônia e o Cerrado.
As informações poderão contribuir para os inventários brasileiros de emissões e para os relatórios apresentados pelo país no âmbito do Acordo de Paris.
Nova plataforma vai reunir dados ambientais
Os resultados das diferentes frentes de trabalho serão reunidos em uma nova plataforma pública chamada TerraBrasilis++.
O ambiente permitirá visualizar de forma integrada mapas, gráficos, indicadores, alertas e outras informações produzidas pelos sistemas de monitoramento ambiental.
A plataforma contará com uma sala de situação ampliada, voltada ao acompanhamento de indicadores, alertas e riscos, além de uma sala de cenários para visualizar e analisar projeções sobre os biomas brasileiros.
O projeto inclui ainda a ampliação da infraestrutura computacional do Inpe para armazenar e processar grandes volumes de imagens de satélite e dados geográficos.
Também estão previstas a atualização de coleções de imagens, mosaicos e cubos de dados e a modernização das tecnologias do Brazil Data Cube.
A expectativa é fortalecer o monitoramento por satélite como ferramenta de prevenção e controle do desmatamento, da degradação da vegetação e dos incêndios florestais.
Fundo Amazônia amplia recursos para combate a incêndios
Além do investimento no SIM-Biomas, o Fundo Amazônia ampliou o apoio a ações de prevenção e combate a incêndios florestais e queimadas não autorizadas.
Segundo as informações divulgadas, R$ 521 milhões foram contratados para iniciativas em 14 estados e três biomas: Amazônia, Cerrado e Pantanal.
Os recursos contemplam o fortalecimento dos Corpos de Bombeiros, brigadas florestais, Força Nacional de Segurança Pública e estruturas de monitoramento e resposta em campo.
A carteira de projetos prevê a disponibilização de 500 veículos, 33,8 mil equipamentos de uso individual, capacitação de 5 mil pessoas e implantação de 30 bases operacionais. Também inclui sistemas, drones e equipamentos especializados para prevenção, monitoramento e combate direto ao fogo.
Desse montante, R$ 371 milhões foram destinados a nove projetos de apoio aos Corpos de Bombeiros dos estados da Amazônia Legal. Os recursos financiam veículos especializados, equipamentos de proteção individual, materiais de combate a incêndios, estruturação de bases operacionais, capacitação e ações preventivas junto a comunidades, agricultores e agentes locais.
Outro eixo é o projeto Manejo Integrado do Fogo: Cerrado e Pantanal, aprovado em julho de 2025, com apoio de R$ 150 milhões. Executada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), a iniciativa busca fortalecer a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo e ampliar a capacidade de prevenção, monitoramento e combate a incêndios florestais e queimadas não autorizadas.
O projeto abrange Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, Bahia e Piauí, além do Distrito Federal.
Fundo Amazônia soma R$ 5,3 bilhões em doações
Ao longo de 18 anos de atuação, o Fundo Amazônia acumulou R$ 5,3 bilhões em doações e aprovou 159 projetos. A carteira contempla iniciativas em mais de 500 municípios, abrangendo aproximadamente três em cada quatro municípios da Amazônia Legal, com ações voltadas à proteção das florestas e à melhoria das condições de vida das populações locais.
As iniciativas apoiadas beneficiam mais de 650 organizações em 75% dos municípios da Amazônia Legal, 167 terras indígenas, 192 unidades de conservação e cerca de 260 mil pessoas.
O apoio também alcança os Corpos de Bombeiros dos nove estados da Amazônia Legal e dos estados que integram as ações voltadas ao Cerrado e ao Pantanal, além das forças de segurança pública da Amazônia Legal e da Força Nacional.
Atualmente, o Fundo Amazônia conta com nove doadores internacionais: Noruega, Alemanha, Reino Unido, União Europeia, Estados Unidos, Suíça, Dinamarca, Irlanda e Japão.
Com o SIM-Biomas, a iniciativa busca ampliar a capacidade de monitoramento ambiental do Brasil, combinando inteligência artificial, dados de satélite e indicadores de risco para apoiar decisões públicas relacionadas à proteção dos biomas brasileiros.
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