O setor produtivo e os órgãos públicos do Amazonas já estão em alerta diante das projeções climáticas para o segundo semestre. A previsão do Serviço Geológico do Brasil (SGB) indica que a estiagem deste ano poderá ser intensa e prolongada, o que tende a comprometer o transporte fluvial e o abastecimento de mercadorias tanto na capital quanto nos municípios do interior. Diante desse cenário, empresários locais decidiram agir preventivamente, antecipando a compra e o armazenamento de produtos para mitigar os impactos logísticos observados em anos anteriores.
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Mesmo antes do pico da cheia dos rios, estimado para ocorrer em julho, a mobilização para enfrentar o período de vazante ganha força. De acordo com o secretário da Defesa Civil do Amazonas, coronel Francisco Máximo, a principal preocupação das autoridades reside no comprometimento da navegação, uma vez que as hidrovias são os principais canais de escoamento e abastecimento da região, gerando reflexos diretos nos âmbitos econômico e social.
Medidas fiscais para reduzir os impactos da estiagem
Para apoiar as empresas afetadas pela necessidade de compras precoces, a Associação Comercial do Amazonas (ACA) propôs ao governo estadual a reedição de estratégias fiscais utilizadas no passado. O presidente da entidade, Bruno Pinheiro, sugeriu que seja mantido o modelo de parcelamento do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para os produtos adquiridos de forma antecipada para a formação de estoque. Segundo o dirigente, a antecipação exige o pagamento adiantado de tributos, o que sobrecarrega o planejamento financeiro imediato das empresas.
A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Amazonas (Fecomércio-AM) corrobora a necessidade de planejamento e suporte fiscal. O presidente da federação, Aderson Frota, ressalta que o adiantamento dos pedidos pode provocar a descapitalização do comércio, pois os empresários realizam o pagamento de mercadorias que só serão comercializadas meses depois. De acordo com Frota, se houver um desequilíbrio no fluxo de caixa, o cenário poderá afetar negativamente a manutenção e a geração de empregos no estado.
Desafios logísticos e o tempo de transporte fluvial
A complexidade da logística amazônica se intensifica consideravelmente com a redução dos níveis dos rios. Dados da Fecomércio-AM revelam que, em condições normais de navegabilidade, as embarcações que partem da região Sudeste demoram até 35 dias para atracar em Manaus. Contudo, em períodos de seca severa, as grandes embarcações ficam impedidas de transitar, elevando o tempo de transporte para até 150 dias.
Quando o calado dos rios inviabiliza o tráfego de grandes navios, as cargas precisam ser desembarcadas em portos alternativos, como no Pará ou no Ceará. A partir desses pontos, os produtos são transferidos para balsas de menor porte para que possam chegar ao destino final. Esse processo encarece os custos operacionais e resulta na aplicação de uma cobrança extra por contêiner, conhecida no mercado como “taxa da água”. Para mitigar esses custos adicionais, a ACA informou que há um alinhamento junto à Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) com o intuito de evitar tarifas abusivas ligadas à estiagem.
Armazenamento precoce visa garantir vendas de fim de ano
No Centro de Manaus, alguns estabelecimentos já consolidaram a estratégia de estocagem para o encerramento do ano. Uma loja de produtos importados, por exemplo, encomendou cerca de 70% das mercadorias previstas para as festividades natalinas junto a fornecedores asiáticos. Parte desse volume já se encontra nos depósitos da capital e o restante segue em trânsito marítimo.
O empresário Erick Bandeira pondera que, embora os custos de armazenamento temporário aumentem as despesas atuais, a decisão é financeiramente vantajosa se comparada à flutuação dos preços do frete durante a crise hídrica. Para o comerciante, a garantia de ter o produto disponível fisicamente supera os riscos de sofrer com o desabastecimento ou com tarifas de transporte elevadas no auge da estiagem.
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