Uma investigação conduzida pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Civil analisa a prestação de contas do Instituto Conhecer Brasil, responsável por um acordo de R$ 108 milhões com a administração municipal para a instalação de internet sem fio na periferia. O caso ganhou repercussão por envolver a entidade gerida pela empresária Karina Ferreira da Gama, proprietária da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme de Bolsonaro, obra biográfica sobre o ex-presidente. Levantamentos apontam que a organização apresentou ao menos R$ 16,5 milhões em notas irregulares à gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) para justificar despesas do projeto de conectividade.
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De acordo com os documentos analisados pelas autoridades, a prestação de contas referente ao período de junho de 2024 a dezembro de 2025 inclui comprovantes cancelados no sistema municipal, recibos sem valor fiscal e documentos emitidos pela própria instituição contra si mesma. A prefeitura, contudo, nega qualquer relação entre os repasses públicos e a produção cinematográfica do ex-mandatário.
Divergências em comprovantes e conexões com o longa biográfico
Entre as principais inconformidades apontadas no levantamento estão faturas que carecem de validade fiscal. Em 2024, o instituto contratou a empresa Make One Tecnologia Digital Ltda. para a locação de equipamentos eletrônicos e apresentou quatro faturas consecutivas, somando R$ 8,5 milhões, emitidas no mesmo dia e com vencimentos idênticos. Diferente das notas fiscais tradicionais, as faturas não recolhem impostos municipais. A defesa da ONG argumenta que a legislação permite a utilização de recibos para essa modalidade de serviço.
Outro ponto sob análise envolve a Complexsys Soluções Integradas Ltda., de propriedade do empresário André Feldman. Em novembro de 2025, a empresa emitiu um documento fiscal de R$ 2 milhões por serviços técnicos, o qual foi cancelado no sistema da prefeitura no mesmo dia da emissão. Apesar do cancelamento, o registro constou na documentação entregue à municipalidade em fevereiro de 2026.
Feldman também possui ligações profissionais com o gabinete do deputado federal Mário Frias, que atua como produtor executivo no projeto do documentário partidário. Adicionalmente, três notas emitidas pela empresa cearense JR Feijão Ltda. em 2025, totalizando R$ 406 mil, também foram canceladas pela Receita estadual dias após a emissão, mas integraram os relatórios de despesas enviados pela instituição.
Parecer técnico aponta faturamento em duplicidade
Em relatório datado de 26 de fevereiro de 2026, a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) detalhou inconsistências graves na execução financeira. Os diretores técnicos sinalizaram que o instituto emitiu cerca de R$ 1,4 milhão em comprovantes para si próprio, prática considerada indevida pela administração pública. O parecer também indicou R$ 925 mil em pagamentos efetuados em duplicidade.
Mesmo diante das ressalvas apontadas pela equipe técnica, o secretariado da pasta optou por aprovar as contas de forma condicional, exigindo o ressarcimento dos valores glosados, que totalizavam R$ 930.256,87. A Prefeitura de São Paulo informou que a quantia foi integralmente devolvida pela instituição, justificando a manutenção e a renovação do vínculo contratual para a instalação dos pontos restantes.
O cronograma inicial estipulava a entrega de 5 mil pontos de conexão gratuita até junho de 2025. Até o momento, foram instalados 3.200 pontos na cidade, após a assinatura de três termos aditivos que estenderam os prazos de finalização.
Subcontratações e investigações da Polícia Civil
As autoridades também apuram os repasses feitos à empresa Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda., contratada pelo instituto por R$ 12 milhões para a instalação de antenas em comunidades paulistanas. A empresa recebeu R$ 2 milhões até o fim de 2025.
O fundador da subcontratada foi detido em fevereiro de 2026 sob a acusação de feminicídio. Nos documentos iniciais firmados com a ONG, o empresário constava apenas pelo primeiro nome, sem dados básicos como CPF ou documento de identidade. Após as primeiras denúncias veiculadas na mídia em dezembro de 2025, o controle societário da prestadora de serviços foi transferido para terceiros na Junta Comercial de São Paulo.
Manifestação dos envolvidos sobre o filme de Bolsonaro e o contrato
A empresária Karina da Gama declarou que não tinha conhecimento sobre os cancelamentos efetuados pelos fornecedores e assegurou que as falhas apontadas em relação ao instituto estão em processo de segurança e regularização na prestação de contas do atual bimestre.
A Complexsys informou, por meio de nota oficial, que atua estritamente como prestadora de serviços técnicos para o Instituto Conhecer Brasil e que acompanha as investigações com tranquilidade, ressaltando a necessidade de preservação do devido processo legal e do princípio da presunção de inocência até que haja conclusões definitivas.
A Prefeitura de São Paulo ressaltou que fiscaliza rigorosamente o andamento do programa e que não há decisões administrativas que comprovem desvios estruturais ou ilegalidades. O Executivo municipal reforçou ainda que o projeto de conectividade pública não possui qualquer vínculo com o financiamento ou a produção do longa biográfico sobre o político liberal.
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