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Sistema ÆSOP antecipa surtos em até três semanas no Brasil

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Cruzamento de dados do SUS e de vendas de medicamentos pode identificar o avanço de doenças antes do aumento das hospitalizações

O sistema ÆSOP, desenvolvido para identificar precocemente surtos com potencial epidêmico, conseguiu antecipar em até três semanas aumentos de hospitalizações por doenças respiratórias no Brasil. A tecnologia cruza informações da Atenção Primária à Saúde do Sistema Único de Saúde com dados sobre vendas de medicamentos isentos de prescrição.

A ferramenta, que está em fase de implementação pelo Ministério da Saúde nos municípios brasileiros, foi desenvolvida por pesquisadores da Fiocruz Bahia e do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a COPPE/UFRJ.

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Conhecido como Sistema de Antecipação de Surtos com Potencial Pandêmico, o ÆSOP utiliza registros de atendimentos feitos na rede pública e informações sobre a comercialização de produtos como descongestionantes nasais. O objetivo é reconhecer alterações no padrão de sintomas e no consumo de medicamentos antes que o avanço de uma doença seja percebido nos hospitais.

Os resultados da avaliação foram publicados na revista científica npj Digital Public Health, do grupo Nature.

Sistema ÆSOP identificou sinais antes das internações

O estudo analisou 746 episódios de aumento de hospitalizações por doenças respiratórias. Os dados de vendas de medicamentos isentos de prescrição emitiram alertas antecipados em aproximadamente 57% dessas ocorrências.

Os sinais foram identificados entre uma e três semanas antes da elevação dos casos graves. Os registros da Atenção Primária à Saúde apresentaram resultado semelhante e anteciparam cerca de 60% dos aumentos de internações observados.

Segundo os pesquisadores, os resultados demonstram que as duas fontes de informação podem detectar uma parcela relevante dos surtos antes que seus efeitos sejam percebidos na rede hospitalar.

A antecipação permite que autoridades de saúde direcionem investigações epidemiológicas, ampliem a coleta de amostras e preparem unidades de atendimento. O período adicional também pode ser utilizado para planejar leitos, organizar equipes e garantir a disponibilidade de medicamentos e outros insumos.

Sintomas iniciais dificultam identificação de novas doenças

Detectar o começo da transmissão de uma doença é um dos principais desafios da saúde pública. Nos estágios iniciais, infecções emergentes podem apresentar sintomas semelhantes aos de enfermidades já conhecidas, incluindo febre, tosse, dores no corpo e mal-estar.

O reconhecimento de um novo agente também depende da estrutura dos serviços locais e da capacidade das redes de vigilância. Em muitos casos, o vírus começa a circular antes de ser oficialmente identificado, como ocorreu com o Zika no Brasil e com o SARS-CoV-2 na China.

Um estudo sobre o Ebola, doença cuja letalidade média pode variar de 25% a 90%, estimou que a contaminação viral poderia cair de 80% para quase zero caso 60% dos infectados fossem diagnosticados até um dia depois do aparecimento dos sintomas. O tempo médio considerado na comparação era de cinco dias.

Nesse cenário, ganhar dias ou semanas pode contribuir para interromper cadeias de transmissão, orientar medidas de controle e reforçar campanhas de vacinação e comunicação em saúde.

Vigilância sindrômica monitora mudanças nos sintomas

A tecnologia utiliza o conceito de vigilância sindrômica, estratégia que acompanha padrões de sintomas para reconhecer possíveis surtos. O monitoramento pode abranger síndromes respiratórias, febris, diarreicas e doenças transmitidas por mosquitos.

Diferentemente dos modelos que dependem exclusivamente da confirmação laboratorial, essa abordagem prioriza a rapidez na identificação dos primeiros sinais. Um crescimento inesperado de atendimentos por febre e tosse em unidades básicas, por exemplo, pode indicar o início de um surto respiratório.

O ÆSOP integra dados registrados no Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica, o SISAB, e informações sobre medicamentos isentos de prescrição adquiridas da IQVIA, empresa especializada em dados, tecnologia e pesquisa para o setor de saúde.

A Atenção Primária é a principal porta de entrada do SUS e reúne ações de prevenção, diagnóstico, tratamento e acompanhamento da população. Grande parte desses serviços é oferecida nas Unidades Básicas de Saúde e por equipes da Estratégia Saúde da Família.

Desempenho apresentou diferenças entre regiões

A capacidade de antecipação não foi uniforme em todo o território nacional. As diferenças regionais estão relacionadas às desigualdades na organização dos serviços de saúde, no acesso ao atendimento e nos hábitos de compra de medicamentos.

Apesar das variações, ao menos uma das fontes analisadas apresentou bom desempenho em aproximadamente três quartos do território brasileiro. O resultado indica que, diante da extensão e da diversidade do país, diferentes sistemas de vigilância devem atuar de forma complementar.

A pesquisa também identificou períodos com crescimento simultâneo dos atendimentos na Atenção Primária e das vendas de medicamentos, mas sem aumento correspondente das internações. Esses episódios podem representar surtos formados principalmente por casos leves.

Mesmo sem gerar hospitalizações, essas ocorrências podem pressionar unidades de saúde, afetar atividades econômicas e representar a manifestação inicial de doenças potencialmente graves. Por isso, o monitoramento não deve ser utilizado apenas para prever internações, mas também para revelar mudanças precoces na saúde da população.

Dados podem fortalecer resposta a futuras epidemias

A implementação do sistema pode permitir que medidas de controle sejam adotadas antes de os surtos aparecerem nos modelos convencionais de vigilância. A proposta é ampliar a capacidade de resposta diante de doenças recorrentes, como dengue e chikungunya, e de possíveis ameaças virais emergentes.

Informações da rede básica e das farmácias também podem ser combinadas com dados climáticos, ambientais, socioeconômicos e de mobilidade humana. Essa integração pode tornar os alertas mais precisos e ajudar autoridades a decidir onde concentrar recursos e investigações.

Em um cenário de circulação internacional rápida de agentes infecciosos, a identificação antecipada pode representar a diferença entre controlar um foco localizado e enfrentar uma emergência de maiores proporções.

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