Uma foto publicada por um entregador nas redes sociais voltou a expor a realidade enfrentada por milhares de entregadores de aplicativos no Brasil. Na imagem, o trabalhador aparece com a perna gravemente lesionada, mas segue realizando entregas. Ao compartilhar o registro em um grupo da categoria, explicou que, apesar da dor, precisava continuar trabalhando para sustentar a família.
A publicação gerou uma onda de relatos semelhantes. Entre os comentários, colegas afirmaram já ter trabalhado com tornozelos inchados, lesões e fortes dores por não terem outra fonte de renda. Outros disseram conviver há anos com problemas de saúde, utilizando bengalas e medicamentos, sem conseguir interromper a rotina de trabalho.
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Os depoimentos refletem um cenário investigado durante seis anos pelos pesquisadores Fernando Pereira e Ana Heloísa da Costa Lemos. O estudo, desenvolvido no âmbito da tese de doutorado de Pereira, defendida no Departamento de Administração da PUC-Rio, analisou como os entregadores utilizam as redes sociais para compartilhar experiências, buscar apoio e discutir as condições de trabalho.
Pesquisa revela rotina marcada por precarização
A investigação utilizou a metodologia da netnografia, voltada à análise de comunidades virtuais. Ao longo do período, foram acompanhados 46 grupos de entregadores em redes sociais, totalizando a análise de 378 publicações e mais de 17 mil comentários.
Os pesquisadores identificaram que esses espaços funcionam como importantes redes de solidariedade, onde os trabalhadores trocam informações sobre ganhos, acidentes, estratégias para aumentar a renda e dificuldades enfrentadas diariamente. As plataformas também servem como ambiente de mobilização e debate sobre os desafios da profissão.
Baixa remuneração obriga jornadas cada vez maiores
Segundo o estudo, a remuneração é um dos principais problemas enfrentados pelos entregadores. Em média, cada entrega rende cerca de R$ 7, valor considerado insuficiente para garantir uma renda mensal estável.
Para alcançar um ganho mínimo, muitos permanecem conectados aos aplicativos por 12, 13 ou até 14 horas por dia. Mesmo assim, diversos relatos apontam dias em que poucas corridas são disponibilizadas. Um dos participantes da pesquisa afirmou ter permanecido sete horas na rua para realizar apenas duas entregas.
Dados do IBGE, divulgados em 2025, e do Ipea, referentes a 2024, reforçam esse cenário. Os entregadores de aplicativos trabalham, em média, 46,4 horas por semana, recebem aproximadamente R$ 2.340 por mês e apenas 35,9% contribuem para a Previdência Social.
Além da baixa remuneração, os profissionais arcam com praticamente todos os custos da atividade, incluindo combustível, manutenção do veículo, pneus, celular, internet e eventuais multas. Recentemente, o governo federal lançou uma linha de crédito destinada ao financiamento de motos e bicicletas elétricas para a categoria, embora ainda não exista avaliação sobre os efeitos da medida.
Acidentes, violência e falta de assistência fazem parte da rotina
Os riscos do trabalho também aparecem com frequência nos relatos analisados. Acidentes de trânsito, assaltos e episódios de violência são recorrentes entre os entregadores, que, na maioria das vezes, ficam sem qualquer proteção trabalhista durante o período de recuperação.
Sem renda e sem cobertura previdenciária suficiente, muitos recorrem a campanhas de arrecadação promovidas pelos próprios colegas para conseguir custear despesas básicas enquanto permanecem afastados.
A pesquisa também identificou relatos de constrangimento durante as entregas, principalmente em condomínios de alto padrão. Em um dos depoimentos, um trabalhador descreveu o impacto de entregar pedidos em residências luxuosas enquanto enfrentava dificuldades financeiras. Outro contou que chegou a chorar ao perceber o contraste entre sua realidade e a dos moradores.
Sensação de autonomia esbarra no controle dos algoritmos
Apesar das dificuldades, muitos trabalhadores afirmam preferir a atividade em relação ao emprego formal, principalmente pela flexibilidade de horários e pela percepção de não possuir um chefe direto.
Entretanto, a pesquisa conclui que essa autonomia é limitada. Embora as plataformas se apresentem como intermediadoras tecnológicas, os entregadores relatam que suas atividades são constantemente monitoradas por algoritmos responsáveis por definir quais corridas serão oferecidas, os valores pagos, as prioridades de atendimento e até bloqueios automáticos.
Segundo os pesquisadores, essa gestão digital reduz significativamente o controle que os trabalhadores possuem sobre a própria renda e sobre a organização do trabalho.
Outro desafio identificado ocorre antes mesmo do início da atividade. Muitos candidatos aguardam meses, e em alguns casos até dois anos, para conseguir aprovação nas plataformas, contrariando a percepção de que o ingresso na profissão ocorre de forma imediata.
Debate sobre regulamentação segue em pauta
Enquanto o número de entregadores cresce nas cidades brasileiras, também aumenta a discussão sobre a regulamentação da atividade e a ampliação dos direitos trabalhistas.
Nas próximas semanas, o Supremo Tribunal Federal deverá retomar o julgamento que discute o reconhecimento do vínculo empregatício entre motoristas e entregadores de aplicativos e as plataformas digitais.
Para os autores da pesquisa, os trabalhadores não atuam de forma isolada. As redes sociais demonstram que eles constroem comunidades de apoio, compartilham experiências e organizam formas coletivas de resistência diante das dificuldades impostas por um modelo de trabalho cada vez mais mediado por plataformas digitais.
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