Violência contra crianças e adolescentes continua sendo um dos principais desafios da rede de proteção no Brasil. Dados analisados pela Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), com base em registros do Sistema de Informações de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, mostram que as notificações mais que dobraram entre 2020 e 2025. No mesmo período, a Região Norte apresentou o segundo maior crescimento do país, com aumento de 809%.
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Entre 2020 e 2025, o Sinan contabilizou 685.629 notificações envolvendo vítimas de 0 a 18 anos em todo o território nacional. Apenas em 2025, foram registrados 165.413 casos, contra 73.635 ocorrências em 2020, o que representa um crescimento de 125% no período.
O levantamento, divulgado pela SPDM na terça-feira (30), revela que todas as regiões brasileiras registraram alta nas notificações. O Nordeste liderou a variação percentual, com aumento de 1.200%, seguido pelo Norte, com 809%. Na sequência aparecem Centro-Oeste, com 508%, Sul, com 421%, e Sudeste, com 221%.
Violência contra crianças atinge principalmente meninas
Os dados mostram que meninas e adolescentes do sexo feminino concentram a maior parte das vítimas. Elas representam 62% das notificações, enquanto os meninos correspondem a 38% dos registros.
Em relação ao perfil racial, quase metade das vítimas foi identificada como parda, representando 49,1% dos casos. Crianças e adolescentes brancos somam 35,7% das notificações, enquanto pessoas negras correspondem a 7,6%.
Entre os diferentes tipos de violência registrados, a violência sexual aparece como a ocorrência mais frequente, responsável por 34% das notificações. Na sequência estão os casos de negligência e abandono, que representam 33,3%, e a violência física, com 32,9%.
Ambiente familiar concentra a maior parte dos casos
O estudo também aponta que a maior parte das agressões acontece dentro do ambiente doméstico. Em 34% das notificações, a mãe foi identificada como autora da violência. Já o pai aparece em 26% dos registros.
A distribuição dos casos por faixa etária mostra que os adolescentes concentram a maior parcela das notificações. Foram 294.010 registros, equivalentes a 43% do total.
Na primeira infância, que engloba crianças de até seis anos, foram contabilizados 256.601 casos, correspondendo a 37,5% das notificações. Já a segunda infância, entre sete e doze anos, registrou 135.018 ocorrências, o equivalente a 20% do total.
Especialista alerta para impactos permanentes da violência
Para o psiquiatra e presidente da SPDM, Ronaldo Laranjeira, o volume de notificações evidencia que a violência contra crianças e adolescentes permanece como um problema grave e persistente no país.
Segundo ele, os efeitos das agressões podem acompanhar as vítimas por toda a vida, afetando o desenvolvimento físico, emocional, social e educacional.
“Quando uma criança ou adolescente é vítima de violência, os impactos podem ultrapassar o momento da agressão e se estender por toda a vida. Estamos falando de consequências físicas, emocionais, sociais e educacionais que podem comprometer o desenvolvimento e aumentar vulnerabilidades futuras. Por isso, é fundamental fortalecer a atuação integrada entre saúde, assistência social, educação e sistema de justiça”, afirmou.
Os dados também mostram que os estados de São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro e Minas Gerais concentram, juntos, 52% de todas as notificações registradas entre 2020 e 2025.
Para a SPDM, os resultados reforçam a necessidade de ampliar a capacitação dos profissionais responsáveis por identificar sinais de violência, fortalecer as redes de proteção e intensificar ações preventivas voltadas às famílias e às comunidades.
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