Estudo publicado pelo Ipea aponta que a modernização dos sistemas de pagamentos e o fortalecimento das transações em moedas locais podem ampliar a autonomia financeira do bloco sul-americano.
O avanço da integração financeira do Mercosul por meio do uso de moedas locais e da conexão entre sistemas de pagamentos instantâneos, como um futuro Pix internacional, pode representar um passo importante para reduzir a dependência do dólar nas transações entre os países do bloco. A avaliação consta em um estudo publicado na 40ª edição da revista Tempo do Mundo, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
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O artigo foi elaborado pelos auditores do Banco Central do Brasil Marian Salles Gomes Bellamy, Elder Mauricio Souza e Marcela Marquez de Amorim Coutinho Alves. Os autores ressaltam que as análises apresentadas refletem exclusivamente suas opiniões e não representam, necessariamente, o posicionamento oficial das instituições às quais estão vinculados.
Dependência do dólar ganha dimensão geopolítica
O estudo destaca que a arquitetura financeira internacional permanece fortemente concentrada no dólar, moeda que ocupa posição central desde os acordos de Bretton Woods, firmados em 1944. Mesmo após o fim da conversibilidade entre dólar e ouro, em 1971, a moeda norte-americana manteve sua influência como principal referência para pagamentos internacionais, reservas cambiais e comércio global.
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Segundo os autores, essa predominância oferece vantagens econômicas aos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que aumenta a exposição de outras economias às oscilações cambiais e às decisões de política monetária adotadas por uma única jurisdição.
O trabalho também chama atenção para o uso crescente de instrumentos financeiros em disputas internacionais. Como exemplo, cita o congelamento de aproximadamente US$ 300 bilhões em reservas do Banco Central da Rússia após o início da guerra na Ucrânia e a exclusão de bancos russos da rede Swift.
Sistema do Mercosul reduz custos, mas ainda enfrenta limitações
Uma das alternativas já existentes no bloco é o Sistema de Pagamentos em Moeda Local (SML), criado para permitir que empresas do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai realizem operações diretamente em suas moedas nacionais, sem necessidade de contratar dólares para cada negociação.
Na prática, o mecanismo reduz custos operacionais, simplifica as transações comerciais e diminui a necessidade de contratos de câmbio individuais. Apesar disso, o estudo aponta que a liquidação final entre os bancos centrais continua sendo feita em dólares e que as mensagens financeiras ainda utilizam a infraestrutura da rede Swift.
Os pesquisadores observam que essa característica reduz, mas não elimina, a dependência das estruturas tradicionais do sistema financeiro internacional.
Utilização ainda representa pequena parcela do comércio
Embora esteja em funcionamento desde 2008 entre Brasil e Argentina e posteriormente tenha sido ampliado para Uruguai e Paraguai, o SML ainda possui participação modesta nas operações comerciais do Mercosul.
Os dados analisados mostram que o sistema responde por cerca de 5% das transações entre Brasil e Argentina, aproximadamente 3,5% entre Brasil e Uruguai e pouco mais de 2% entre Brasil e Paraguai.
Em 2025, as exportações brasileiras para a Argentina realizadas pelo SML alcançaram cerca de R$ 4,46 bilhões, enquanto as importações ficaram próximas de R$ 10 milhões. No comércio com o Uruguai, foram registrados R$ 612,1 milhões em exportações e R$ 73,1 milhões em importações. Já nas operações com o Paraguai, o mecanismo movimentou R$ 1,04 bilhão em exportações brasileiras e cerca de R$ 310 milhões em importações.
O estudo identifica diversos fatores para essa baixa adesão, entre eles a participação voluntária das instituições financeiras, a preferência de empresas por negociar em dólar e limitações operacionais, como o prazo médio de três dias para liquidação das operações.
Pix internacional aparece como caminho para modernização
Os autores defendem que a próxima etapa da integração financeira regional passa pela interoperabilidade entre sistemas de pagamentos instantâneos.
O Brasil é citado como exemplo de sucesso com o Pix, que já reúne mais de 170 milhões de usuários e registrou mais de 7 bilhões de transações apenas em janeiro de 2026. Apesar da ampla utilização no mercado doméstico, o sistema ainda não possui integração oficial com plataformas de pagamentos de outros países.
Hoje existem experiências voltadas principalmente ao turismo, especialmente na Argentina, mas elas dependem de instituições privadas para realizar a conversão cambial e continuam utilizando mecanismos tradicionais para a liquidação internacional.
Na avaliação dos pesquisadores, uma conexão direta entre sistemas nacionais de pagamentos instantâneos poderia reduzir custos, acelerar transferências e ampliar a eficiência das operações entre os países do Mercosul.
Experiências internacionais servem de referência
O estudo cita iniciativas já adotadas na Ásia, como a integração entre o PromptPay, da Tailândia, e o PayNow, de Singapura, que permitem transferências internacionais mais rápidas entre os dois países.
Também é mencionada a iniciativa Nexus, desenvolvida pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS), que busca criar uma plataforma de interoperabilidade entre sistemas nacionais de pagamentos instantâneos.
Para os autores, o Mercosul reúne condições para avançar nessa direção, desde que o desenvolvimento tecnológico seja acompanhado por mecanismos sólidos de governança, capazes de garantir maior autonomia e segurança para os países participantes.
A conclusão do estudo aponta que fortalecer os pagamentos em moedas locais, modernizar a infraestrutura financeira e ampliar a integração entre os sistemas nacionais pode contribuir para reduzir custos comerciais, facilitar o comércio intrabloco e reforçar a soberania financeira da região em um cenário internacional marcado por transformações geopolíticas.
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