Pesquisas identificam aumento de diagnósticos, procura por ajuda e maior risco entre jovens após legalização das plataformas digitais
A expansão das apostas online tem sido acompanhada por um aumento nos casos de dependência e na busca por tratamento, segundo estudos recentes realizados nos Estados Unidos. As pesquisas analisaram os efeitos da legalização das apostas esportivas e apontam que a facilidade de acesso por aplicativos de celular está associada ao crescimento de transtornos relacionados ao jogo, especialmente entre homens jovens.
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O avanço desse mercado transformou a forma como milhões de pessoas apostam. Em poucos segundos, é possível fazer previsões sobre o resultado de uma partida, número de gols, cartões, escanteios e até lances específicos durante um jogo. Esse cenário, semelhante ao observado atualmente no Brasil, passou a despertar atenção de pesquisadores da área da saúde mental.
Apostas online aumentaram procura por ajuda especializada
Um dos estudos foi publicado na revista científica Information Systems Research e avaliou o impacto da legalização das apostas esportivas em diferentes estados norte-americanos após a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, em 2018, que permitiu a regulamentação da atividade por cada estado.
Os pesquisadores compararam indicadores antes e depois da legalização, incluindo o número de ligações para a Linha Nacional de Ajuda para Problemas com Jogos de Azar e as taxas de suicídio.
Os resultados mostraram que os estados que autorizaram apostas esportivas pela internet registraram aumento de 22,8% nas ligações para o serviço de apoio, além de crescimento nas taxas de suicídio. Já nos locais onde apenas as casas de apostas físicas foram liberadas, não houve mudanças estatisticamente relevantes.
Para o pesquisador Brad Greenwood, da Universidade George Mason e autor principal do estudo, o ambiente digital reúne características que favorecem comportamentos compulsivos. Segundo ele, o efeito observado parece estar diretamente relacionado ao formato online, que elimina barreiras de tempo e localização e oferece recursos como notificações, recompensas constantes e diversas possibilidades de apostas durante uma única partida.
A pesquisa também identificou que os impactos foram mais intensos entre homens jovens, solteiros e pessoas com menor nível de escolaridade. Os autores ressaltam, no entanto, que o estudo demonstra uma associação entre os fatores analisados, sem comprovar uma relação direta de causa e efeito.
Diagnósticos cresceram mais de 60%
Outro levantamento, desenvolvido pela Epic Research, analisou prontuários eletrônicos de mais de 197 milhões de adultos entre 2018 e março de 2026.
Nos estados onde as apostas esportivas foram legalizadas, os diagnósticos de transtorno do jogo aumentaram mais de 60%, passando de três para 4,8 casos por 100 mil habitantes. Nos estados que mantiveram a proibição das apostas esportivas, os registros da doença apresentaram queda no mesmo período.
Os adultos entre 30 e 49 anos concentraram a maior incidência da condição, enquanto o crescimento mais acelerado ocorreu entre pessoas de 18 a 29 anos, principalmente homens.
Reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno mental, o vício em jogos de azar compromete a capacidade de controlar as apostas mesmo diante de prejuízos financeiros, familiares e emocionais. Entre os sinais mais comuns estão a necessidade de apostar valores cada vez maiores, tentativas frustradas de interromper o comportamento, mentiras para esconder as perdas e o impulso de continuar apostando para recuperar o dinheiro perdido.
O pesquisador Mark van der Maas, da Universidade Rutgers, afirmou à NBC News que ampliar o acesso às apostas também amplia os problemas relacionados ao jogo. Os autores destacam ainda que os números provavelmente são inferiores à realidade, já que muitos casos nunca recebem diagnóstico formal.
Brasil vive expansão das bets durante a Copa do Mundo
Enquanto os Estados Unidos acumulam estudos sobre os impactos das apostas esportivas, o Brasil atravessa um momento de forte crescimento do setor. A Copa do Mundo de 2026, primeira realizada sob um mercado nacional regulamentado de apostas, impulsiona ainda mais esse segmento.
Estimativa do banco britânico Barclays, citada pelo Estadão, aponta que as apostas esportivas durante o torneio deverão movimentar mais de R$ 255 bilhões em todo o mundo. Já levantamento da empresa Kantar indica que 37% dos brasileiros pretendem realizar apostas durante a competição.
Especialistas alertam que muitos apostadores desenvolvem a chamada ilusão de controle, acreditando que o conhecimento sobre futebol aumenta as chances de lucro. As plataformas reforçam essa percepção ao oferecer apostas cada vez mais específicas, conhecidas como bet builders, que permitem combinar diferentes previsões em uma única aposta.
A ampla publicidade também é apontada como fator de preocupação. Durante grandes eventos esportivos, casas de apostas ocupam espaço em transmissões de televisão, redes sociais, outdoors e campanhas com atletas e influenciadores.
Os dados brasileiros já indicam reflexos desse cenário. Segundo o Ministério da Saúde, a procura por atendimento no Sistema Único de Saúde relacionada à dependência de jogos online cresceu cerca de 140% nos últimos cinco anos.
Além disso, a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, criada pelo Ministério da Fazenda, recebeu mais de 574 mil pedidos voluntários de bloqueio de CPF nas casas de apostas regulamentadas apenas nos cinco primeiros meses de 2026. Em 41% dos pedidos, os próprios usuários declararam ter perdido o controle sobre as apostas.
Embora a regulamentação contribua para reduzir fraudes e ampliar a fiscalização do setor, pesquisadores defendem que ela seja acompanhada por políticas permanentes de prevenção, campanhas de conscientização, restrições à publicidade e ampliação do acesso ao tratamento para pessoas que desenvolvem dependência.
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