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Willer Tomaz, Vorcaro e milícia: o que pesa contra Flávio Bolsonaro?

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Entenda as apurações sobre lavagem de dinheiro, o financiamento do filme Dark Horse, suspeitas de ligação com milícias e o caso das rachadinhas

O senador e candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), é alvo de investigações que apuram suspeitas de lavagem de dinheiro e possíveis irregularidades relacionadas ao financiamento do filme Dark Horse, produção sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. O parlamentar também enfrenta questionamentos sobre sua relação com pessoas investigadas por supostos crimes e sobre acusações antigas envolvendo a chamada “rachadinha”, caso que foi encerrado sem julgamento do mérito das acusações.

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Um novo procedimento no Supremo Tribunal Federal (STF) apura suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo Flávio e o advogado Willer Tomaz. A investigação foi noticiada pelo jornal O Estado de S. Paulo em 18 de outubro e confirmada pela BBC News Brasil. O caso foi distribuído ao gabinete do ministro Alexandre de Moraes e tramita sob sigilo.

Além desse procedimento, o senador é investigado pela Polícia Federal (PF) em um caso relacionado a recursos do Banco Master destinados ao financiamento do filme Dark Horse. As duas apurações podem ter desdobramentos jurídicos distintos, inclusive diante das regras constitucionais aplicáveis a um eventual presidente da República.

Investigação apura relação entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz

O novo procedimento investiga uma possível prática de lavagem de dinheiro envolvendo Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz, que também é alvo de uma apuração sobre suspeitas de participação em um esquema de desvio de recursos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Nesse segundo caso, Flávio não é investigado.

A investigação relacionada ao senador tem origem na análise do celular de Tomaz, apreendido no início de agosto durante uma operação da Polícia Federal. A partir do material, os investigadores identificaram referências a festas, encontros e reuniões envolvendo os dois.

De acordo com relatório da PF, também foi encontrada uma conta bancária vinculada à empresa Alcazar Holding na qual Flávio aparecia identificado como “usuário master”.

Os investigadores identificaram ainda um volume elevado de transações financeiras entre empresas e casas de apostas. Uma conta bancária de Tomaz teria movimentado aproximadamente R$ 130 milhões entre março e maio de 2025.

O relatório policial também aponta que o volume diário de apostas realizado pelo advogado alcançava cifras milionárias, consideradas pelos investigadores superiores ao normalmente esperado para uma atividade recreativa.

Segundo reportagens do Estado de S. Paulo e da TV Globo, a PF suspeita que uma sala encontrada em agosto, em um hangar utilizado por aviões de Tomaz no aeroporto de Brasília, pudesse ter sido usada para guardar dinheiro em espécie. O local teria sido identificado após uma denúncia anônima.

Empresas de apostas e suspeita de favorecimento

A apuração também examina a atuação de empresas ligadas a Tomaz no setor de apostas.

Uma delas, a Pixs Cobrança, posteriormente denominada RioPag, teria sido favorecida durante o governo de Cláudio Castro (PL), em 2023, para vencer um edital da Loterj, responsável pela loteria estadual do Rio de Janeiro. O contrato previa o processamento de pagamentos de apostadores para empresas de apostas autorizadas pela autarquia.

Outra empresa ligada ao advogado, a Rede Loto, foi a primeira a obter autorização da Loterj para explorar apostas esportivas de quota fixa, com prazo inicial de até cinco anos, conforme o relatório citado na investigação.

Os investigadores também apontaram que a Cathedral, holding do setor de apostas on-line pertencente a Tomaz, teria custeado viagens internacionais de Flávio Bolsonaro e familiares.

O senador reconhece a proximidade da amizade com o advogado. Segundo reportagem publicada por O Globo em 18 de setembro, os dois realizaram cinco viagens internacionais juntos entre janeiro e maio de 2025, com destinos como Estados Unidos, África do Sul e países europeus.

Em uma dessas viagens, em janeiro de 2025, Flávio e familiares foram da Flórida, nos Estados Unidos, a Brasília em um jatinho pertencente a Tomaz em sociedade com uma empresa de Daniel Vorcaro, então banqueiro do Banco Master. O advogado também estava a bordo.

A BBC News Brasil informou que procurou a assessoria do senador, mas não obteve resposta sobre os questionamentos relacionados às viagens.

O que dizem Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz e Cláudio Castro

Em nota enviada ao Estado de S. Paulo em 18 de outubro, Flávio negou estar sendo investigado no STF. O senador afirmou que os autos ainda não haviam sido convertidos em inquérito e que não existia manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR) ou decisão judicial sobre o caso.

A defesa de Willer Tomaz criticou o vazamento de informações sigilosas às vésperas da eleição e afirmou que as empresas e participações do advogado são lícitas, estão registradas publicamente e foram declaradas à Receita Federal.

O escritório também negou a existência de sócios ocultos, contas não declaradas ou patrimônio escondido. Segundo a defesa, a Rede Loto, integralmente controlada pela Cathedral, nunca iniciou operações de apostas.

Sobre Flávio, a defesa afirmou que o senador nunca teve acesso ou poderes sobre contas de empresas do advogado e classificou a relação entre ambos como uma amizade entre famílias.

Cláudio Castro, por sua vez, confirmou ser amigo de Tomaz, a quem conhece desde 2020. O ex-governador negou ter praticado ilegalidades, recebido vantagens indevidas ou tomado decisões administrativas em razão da amizade. Também informou que o advogado atuou em sua defesa em alguns processos.

O caso Dark Horse e as negociações com Daniel Vorcaro

Outra investigação envolvendo Flávio Bolsonaro apura suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção e outros possíveis crimes relacionados ao financiamento do filme Dark Horse, que retrata a trajetória de Jair Bolsonaro.

Segundo informações divulgadas, o senador negociou diretamente com Daniel Vorcaro um contrato de aproximadamente R$ 134 milhões para financiar a produção. De acordo com a Polícia Federal, cerca de metade desse valor chegou a ser paga. Os desembolsos foram interrompidos após a liquidação do Banco Master, em novembro de 2025, depois que o Banco Central identificou fraudes bilionárias.

A principal suspeita dos investigadores é que parte dos recursos transferidos possa ter sido utilizada para finalidades diferentes das previstas. Até o momento descrito na reportagem original, a produtora do filme não havia detalhado a destinação dos quase R$ 70 milhões recebidos.

O dinheiro não foi transferido diretamente à produtora, mas a um fundo imobiliário nos Estados Unidos administrado pelo advogado Paulo Calixto, amigo de Eduardo Bolsonaro. Flávio nega irregularidades. Durante uma sabatina da TV Globo, em 15 de outubro, afirmou que se tratava de um pedido de patrocínio privado para um filme privado, sem contrapartidas.

Os contatos entre o senador e Vorcaro começaram no fim de 2024 e continuaram mesmo após a primeira prisão do banqueiro, em 17 de novembro de 2025. Em dezembro daquele ano, Flávio encontrou Vorcaro em sua residência, quando o banqueiro estava em prisão domiciliar e utilizava tornozeleira eletrônica. Segundo o senador, o encontro teve como objetivo encerrar a relação e o financiamento da produção.

Vorcaro foi preso novamente em março de 2026. Ele é suspeito de liderar fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master, incluindo operações com recursos de fundos de pensão de servidores estaduais e municipais.

Entre esses fundos está o Rioprevidência, dos servidores públicos do Rio de Janeiro, que aplicou R$ 3,69 bilhões no Banco Master e registrou prejuízos com a operação.

O inquérito sobre o financiamento de Dark Horse tramita no gabinete do ministro André Mendonça, no STF.

Suspeitas de ligação com milicianos e repasse de emenda parlamentar

Flávio Bolsonaro também enfrenta questionamentos antigos sobre possíveis vínculos com integrantes de milícias no Rio de Janeiro.

As suspeitas ganharam força após a contratação, para seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), de familiares de Adriano da Nóbrega, ex-capitão da Polícia Militar expulso da corporação em 2014 por envolvimento com o jogo do bicho. Posteriormente, ele foi acusado de atuar como miliciano e de chefiar o chamado Escritório do Crime, grupo apontado como especializado em assassinatos por encomenda.

A mãe de Adriano, Raimunda Magalhães, e sua então esposa, Danielle Mendonça da Costa, trabalharam no gabinete de Flávio. Ambas foram exoneradas em 2018, quando veio à tona o caso conhecido como “rachadinha”.

Em outra frente, uma reportagem do Estado de S. Paulo, publicada em setembro de 2026, revelou que o gabinete do senador enviou, em 2024, uma emenda parlamentar de R$ 199 mil para um suposto projeto esportivo no Rio de Janeiro após um pedido de Robson Calixto, conhecido como “Peixe”.

Calixto foi condenado em fevereiro de 2026 pelo STF por envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ).

Segundo a reportagem, as informações fazem parte de uma investigação da Polícia Federal iniciada em julho de 2026 para apurar possíveis desvios de emendas destinadas a entidades do Rio de Janeiro ligadas ao ex-deputado Chiquinho Brazão e ao ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado Domingos Brazão, condenados pela morte de Marielle.

Durante a apuração, a PF encontrou no celular de Calixto diálogos sobre a liberação da emenda parlamentar com Maria de Fátima Bezerra Castro, assessora de Flávio Bolsonaro.

Em resposta ao jornal, o senador afirmou que os recursos foram destinados de acordo com a legislação e os critérios técnicos do Ministério do Esporte. Também declarou que a entidade beneficiária apresentou notas fiscais dos materiais adquiridos e devolveu os valores não utilizados.

Flávio sustentou que a responsabilidade pela execução dos recursos é da entidade beneficiária e que eventuais irregularidades devem ser investigadas pelos órgãos de controle.

Caso das “rachadinhas” foi encerrado sem julgamento do mérito

O caso conhecido como “rachadinha” começou a ganhar repercussão em 2018, quando Flávio Bolsonaro foi eleito senador e Jair Bolsonaro venceu a eleição presidencial. Na época, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou movimentações milionárias na conta de Fabrício Queiroz, então chefe de gabinete do parlamentar na Alerj, consideradas incompatíveis com o salário recebido.

Em 2020, o Ministério Público denunciou Queiroz sob a suspeita de atuar como operador de um esquema no qual funcionários do gabinete devolviam parte dos salários ao parlamentar.

Segundo a denúncia, 12 funcionários considerados fantasmas teriam recebido, ao todo, R$ 6,1 milhões em valores da época. O Ministério Público afirmou que pelo menos R$ 2 milhões foram destinados à conta de Queiroz e outros R$ 2 milhões foram disponibilizados ao grupo por meio de saques em dinheiro.

Entre as movimentações investigadas estavam depósitos fracionados em espécie nas contas de Flávio e de sua esposa. Segundo a denúncia, os depósitos coincidiam com o vencimento de parcelas de financiamentos para a compra de dois imóveis no Rio de Janeiro.

Os promotores também identificaram pagamentos em dinheiro vivo de 169 boletos referentes à escola das filhas do senador e ao plano de saúde da família, entre 2013 e 2018. Os valores somavam R$ 247 mil, segundo a apuração.

Queiroz admitiu que recolhia parte dos salários dos funcionários, mas afirmou que fazia isso sem autorização de Flávio. Segundo sua versão, os recursos eram utilizados para contratar informalmente outras pessoas para auxiliar nas atividades parlamentares. Flávio, por sua vez, sempre negou as acusações e afirmou que o caso foi motivado por perseguição política contra sua família.

Em entrevista ao podcast Inteligência Ltda., em abril de 2026, o senador disse que nunca respondeu a um processo criminal relacionado ao caso e criticou a investigação, que envolveu a quebra de sigilos bancários e fiscais.

O parlamentar também sustentou que Queiroz tinha autonomia para organizar parte da equipe que atuava nas ruas, em atividades como distribuição de panfletos e realização de eventos.

Por que a investigação da rachadinha foi encerrada?

Flávio chegou a ser denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, em 2019, pelos crimes de organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro. Entretanto, o caso foi paralisado por decisões judiciais, sem que o mérito das acusações fosse julgado.

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou decisões da 27ª Vara Criminal do Rio de Janeiro que haviam autorizado a quebra dos sigilos bancário e fiscal do senador e de pessoas relacionadas a ele. A Corte entendeu que a medida não havia sido devidamente fundamentada.

Posteriormente, o STF anulou relatórios do Coaf que embasaram a investigação, assim como as provas decorrentes desses documentos. O entendimento foi de que o órgão não poderia produzir relatórios de inteligência financeira contra um suspeito que ainda não tivesse sido formalmente incluído em procedimento investigatório.

Em maio de 2026, o Ministério Público do Rio de Janeiro informou à BBC News Brasil que o caso havia sido encerrado depois que o ministro Gilmar Mendes, do STF, rejeitou, em fevereiro de 2025, um recurso que pedia a reabertura da investigação.

O que pode acontecer com as investigações se Flávio vencer a eleição?

Flávio Bolsonaro disputa o segundo turno da eleição presidencial em 25 de outubro de 2026 contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Um eventual resultado favorável ao senador pode afetar o andamento jurídico das investigações, dependendo da natureza dos fatos apurados e das regras constitucionais aplicáveis ao cargo de presidente da República.

O artigo 86 da Constituição Federal estabelece que, durante o mandato, o presidente não pode ser responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções.

Segundo o criminalista João Pedro Pádua, professor de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF), ainda existe discussão jurídica sobre a possibilidade de investigar um presidente por atos sem relação com o mandato.

Na avaliação do professor, uma eventual denúncia relacionada a fatos anteriores ou sem vínculo com as funções presidenciais teria de aguardar o fim do mandato para ser recebida, caso se aplique a proteção constitucional.

Pádua também explicou que, nesse período, a prescrição dos crimes investigados fica suspensa. Assim, em tese, os casos poderiam ser retomados após o encerramento do mandato presidencial.

O desfecho das apurações dependerá das provas reunidas, das decisões judiciais e das manifestações dos órgãos responsáveis. Até que haja decisões definitivas, as suspeitas investigadas não devem ser tratadas como culpa comprovada.

*Com Informações: BBC News Brasil

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