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Lulinha, Luchsinger e Lava Jato: o que pesa de fato contra Lula?

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As investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, e a empresária Roberta Moreira Luchsinger voltaram ao centro do debate político durante a disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Enquanto o senador questionou as relações entre pessoas próximas ao presidente e investigados por suspeitas de irregularidades no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), Lula cobrou explicações sobre negociações financeiras envolvendo o adversário.

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No primeiro debate presencial entre os candidatos no segundo turno, realizado no domingo (18), os dois trocaram acusações de corrupção e mencionaram familiares e pessoas próximas. Flávio citou Roberta Luchsinger, apontada como amiga de Lulinha. Lula, por sua vez, questionou os R$ 134 milhões negociados pelo senador com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, supostamente destinados ao financiamento de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Durante o confronto, Lula desafiou Flávio a autorizar a abertura dos sigilos bancário e telefônico de ambos e de seus familiares, caso o senador aceitasse a mesma condição. Na terça-feira (20), o presidente protocolou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma autorização para a abertura de seus sigilos e dos sigilos de seus cinco filhos.

Lula afirmou que tomou a decisão para defender sua reputação e a de sua família. O presidente também declarou acreditar na inocência de Lulinha, mas defendeu que as suspeitas sejam apuradas.

Apesar das acusações políticas, a situação jurídica do presidente é diferente da de seus familiares e de outras pessoas citadas nas investigações. Atualmente, Lula não responde a acusações na Justiça. As principais condenações que enfrentou no âmbito da Operação Lava Jato foram anuladas, enquanto outras ações terminaram em absolvição.

Lava Jato: por que as condenações de Lula foram anuladas?

Lula foi alvo de diferentes processos no âmbito da Operação Lava Jato. Os casos mais conhecidos envolvem um tríplex no Guarujá, no litoral de São Paulo, e um sítio em Atibaia, no interior paulista.

No processo do tríplex, o então ex-presidente foi acusado de receber um imóvel do grupo OAS como suposta contrapartida por desvios de recursos da Petrobras durante os governos do PT.

Já no caso do sítio de Atibaia, a acusação sustentava que obras realizadas pelas empreiteiras OAS e Odebrecht teriam beneficiado Lula em uma propriedade pertencente a um amigo, frequentada pelo então ex-presidente e por seus familiares. Segundo a força-tarefa da Lava Jato, as melhorias teriam sido custeadas com recursos desviados da estatal.

A defesa de Lula contestou as acusações. Os advogados argumentaram que os imóveis não pertenciam ao petista e que não havia provas concretas de que as obras tivessem sido pagas com dinheiro desviado da Petrobras. Também questionaram a utilização de depoimentos de delatores e de outros réus que buscavam benefícios judiciais.

Os processos foram conduzidos inicialmente pelo então juiz Sergio Moro, no caso do tríplex, e pela juíza Gabriela Hardt, no caso do sítio. As condenações foram posteriormente confirmadas pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4).

Em 2018, a condenação no caso do tríplex tornou Lula inelegível naquele ano. O petista também foi preso após o entendimento então vigente no Supremo Tribunal Federal (STF) permitir a execução da pena depois de condenação em segunda instância. Ele permaneceu preso por 580 dias.

Em 2021, o STF anulou as condenações. O ministro Edson Fachin entendeu que a Justiça Federal de Curitiba não tinha competência para julgar os processos. Posteriormente, a Segunda Turma e o plenário do Supremo reconheceram a parcialidade de Moro no caso do tríplex, entendimento que também foi aplicado ao processo do sítio.

Com as anulações, os processos voltaram à situação anterior às condenações. Entretanto, o prazo legal para eventual punição pelos crimes atribuídos a Lula terminou, impedindo que ele voltasse a ser julgado nesses dois casos.

Lula foi inocentado na Lava Jato?

A anulação de uma condenação não equivale, necessariamente, a uma absolvição sobre o mérito da acusação. No caso de Lula, as decisões do STF invalidaram as condenações por questões relacionadas à competência judicial e à parcialidade do julgador.

O termo “inocentado” é utilizado frequentemente no debate público, mas não corresponde a uma categoria jurídica específica. Na linguagem jurídica, os principais desfechos são a condenação ou a absolvição. No caso do tríplex e do sítio de Atibaia, Lula não pode mais ser julgado pelas acusações em razão do encerramento dos prazos legais para punição, conforme o texto original.

Outro processo envolvendo o presidente terminou com uma decisão de absolvição.

Operação Zelotes: Lula foi absolvido em 2021

Em 2017, Lula tornou-se réu na Operação Zelotes, sob acusações de tráfico de influência, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

A investigação apurava a suspeita de que uma medida provisória editada em 2009 teria favorecido montadoras de veículos em troca de vantagens financeiras destinadas ao Partido dos Trabalhadores (PT).

Segundo a acusação do Ministério Público Federal (MPF), cerca de R$ 6 milhões teriam sido destinados ao financiamento de campanhas eleitorais do partido.

A defesa do então ex-presidente negou as acusações e argumentou que não havia provas de sua participação no suposto esquema.

Em 2021, a Justiça Federal absolveu Lula. O juiz Frederico Botelho de Barros Viana, da 10ª Vara Federal, concluiu que não existiam evidências mínimas para comprovar o envolvimento do petista. Outros réus também foram absolvidos na mesma decisão.

Lulinha: três inquéritos apuram suspeitas de tráfico de influência

Embora Lula não figure como investigado nos inquéritos relacionados ao caso, as suspeitas envolvendo seu filho mais velho, Fábio Luís Lula da Silva, passaram a pressionar a campanha presidencial.

Lulinha entrou no radar das investigações após a abertura de três inquéritos no STF, autorizados a pedido da Polícia Federal (PF) em julho e agosto.

As apurações envolvem suspeitas de tráfico de influência em três frentes: possível favorecimento de uma empresa ligada a Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, na comercialização de derivados de cannabis medicinal com o Ministério da Saúde; suspeitas de favorecimento de empresários em contratos da Dataprev; e possível atuação de um grupo para beneficiar empresas junto ao governo federal.

O nome de Lulinha também apareceu nas investigações da Operação Sem Desconto, que apura irregularidades relacionadas a descontos não autorizados em aposentadorias e pensões do INSS.

Segundo relatos mencionados no relatório da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, um ex-funcionário de Antunes teria afirmado ter ouvido que o empresário realizou pagamentos a Lulinha, incluindo R$ 25 milhões e uma suposta mesada de R$ 300 mil.

Até o momento descrito no material, não havia confirmação documental pública desses pagamentos.

Lulinha reconheceu que acompanhou Antunes em uma viagem a Portugal, em 2024, com passagens e hospedagem custeadas pelo empresário. A viagem teria como objetivo visitar uma fábrica de produção de cannabis medicinal.

Ele, no entanto, negou ter recebido dinheiro de Antunes. Sua defesa também afirmou que ele desconhecia as atividades do empresário relacionadas ao INSS.

CPMI do INSS rejeitou relatório que pedia indiciamento

Em março, a CPMI do INSS rejeitou, por 19 votos a 12, o relatório apresentado pelo deputado Alfredo Gaspar (PL-AL). O documento recomendava o indiciamento de 216 pessoas, entre elas Lulinha, além de solicitar sua prisão preventiva.

Gaspar, integrante da oposição, foi acusado de utilizar politicamente a investigação. Posteriormente, passou a integrar a chapa presidencial de Flávio Bolsonaro como candidato a vice-presidente.

Os inquéritos envolvendo Lulinha continuam no STF. Em agosto, a Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu que as investigações fossem encaminhadas à primeira instância da Justiça.

O argumento é que Lulinha não ocupa cargo público que lhe assegure foro privilegiado no Supremo. Até o momento descrito no material, o pedido ainda não havia sido deferido pela Corte.

Durante o debate presidencial, Lula declarou acreditar na inocência do filho e afirmou que as suspeitas devem ser investigadas.

Em resposta à BBC News Brasil, a defesa de Lulinha informou que não responderia a questionamentos sobre fatos e mérito baseados em relatórios policiais preliminares. Os advogados afirmaram que a inocência de Fábio Luís será demonstrada no processo judicial.

Ex-chefe de gabinete de Lula também foi citado nas apurações

Outro personagem mencionado nas investigações é Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula.

Ele passou a ser investigado após a Polícia Federal identificar indícios de que despesas suas teriam sido pagas por uma lobista próxima a Lulinha.

Marcola deixou o cargo em julho e negou ter repassado uma minuta de contrato encaminhada pela empresária.

Na ocasião, Lula afirmou que a relação levantava suspeitas dentro do Palácio do Planalto e declarou que, caso o ex-assessor tivesse cometido alguma irregularidade, deveria responder por seus atos.

Roberta Luchsinger: pagamentos e visitas a órgãos federais estão sob investigação

A empresária Roberta Moreira Luchsinger também é um dos nomes centrais das apurações. Apontada como amiga próxima de Lulinha, ela é investigada por suspeita de ter atuado como intermediária em relações entre o filho do presidente e Antônio Carlos Camilo Antunes.

Roberta concedeu entrevista à CNN Brasil no sábado (17), quando afirmou estar disposta a negociar um acordo de delação premiada. Na ocasião, acusou a Polícia Federal de agir para proteger Lulinha, mas não apresentou informações novas sobre as investigações em andamento.

A empresária é investigada há cerca de dois anos no âmbito da Operação Sem Desconto, que apura um esquema de descontos não autorizados em benefícios previdenciários. Ela também é alvo de apurações sobre possíveis irregularidades em atividades de lobby para empresas interessadas em contratos com o governo federal.

Um levantamento do jornal Estadão, elaborado com base na Lei de Acesso à Informação, identificou que Roberta esteve 42 vezes em órgãos federais entre janeiro de 2023 e abril de 2024. Em 41 dessas ocasiões, as visitas não constavam nas agendas oficiais das autoridades.

Em algumas das visitas, ela estava acompanhada de empresários ou de pessoas próximas a Lulinha.

Em dezembro de 2025, Roberta foi alvo de uma operação de busca e apreensão.

PF investiga pagamentos de R$ 1,5 milhão a empresa ligada à lobista

Um dos pontos analisados pelos investigadores é a relação financeira entre Roberta e Antunes.

Segundo a Polícia Federal, empresas ligadas ao empresário realizaram cinco pagamentos de R$ 300 mil a uma empresa de Roberta, totalizando R$ 1,5 milhão.

A PF também investiga se Lulinha teria atuado para facilitar a autorização governamental para a comercialização de cannabis medicinal.

Em depoimento à Polícia Federal, em maio, segundo informações divulgadas pelo UOL, Roberta afirmou que prestou serviços a Antunes relacionados à regulamentação do mercado de canabidiol e que recebeu pelos trabalhos realizados.

Ela declarou ainda que, quando conheceu o empresário, não sabia das suspeitas que posteriormente surgiram contra ele. A defesa da empresária sustenta que ela é alvo de perseguição.

Além das movimentações financeiras, os investigadores analisam as comunicações entre Roberta e Antunes para esclarecer a natureza das relações e verificar possíveis irregularidades.

O presidente Lula, por sua vez, afirmou à TV Globo que considera Roberta uma pessoa que teria enganado diversas pessoas. Durante o debate com Flávio Bolsonaro, declarou que a situação envolvendo a empresária é responsabilidade da Polícia Federal.

O que está em jogo no debate presidencial?

As investigações envolvendo Lulinha e Roberta Luchsinger tornaram-se um dos pontos de confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro na reta final da campanha presidencial.

De um lado, as suspeitas relacionadas a pessoas próximas ao presidente alimentam questionamentos da oposição sobre possíveis relações com empresários investigados por irregularidades. De outro, Lula utiliza o debate para cobrar esclarecimentos sobre negociações financeiras atribuídas ao adversário e defende que as acusações sejam examinadas pelas autoridades competentes.

É importante distinguir as situações jurídicas: Lula não responde atualmente a acusações na Justiça, suas condenações nos casos do tríplex e do sítio de Atibaia foram anuladas e ele foi absolvido na Operação Zelotes. Já os inquéritos relacionados a Lulinha e Roberta Luchsinger apuram suspeitas que, conforme as informações apresentadas, ainda dependem do andamento das investigações.

O segundo turno da eleição presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro está previsto para domingo (25).

As acusações apresentadas durante a campanha, por si só, não comprovam a prática de crimes. A definição de responsabilidades depende das provas reunidas e das decisões das autoridades competentes.

*Com Informações: BBC News Brasil

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